Nélida Piñon
 
 
 
 
 
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resumos

Sob o tríplice signo de Dédalo : o sagrado labirinto da terra, da cidade, da casa em Fundador,  de Nélida Piñon
Fuente: Texto apresentado no Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas, Rio de Janeiro, 1999
 
Aguiar Maria Alice


Doutora em Teoria Literária.
Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ
e Professora Titular da Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO


O romance Fundador , assim como as demais obras de Nélida Piñon, engloba uma profunda investigação no âmbito da religião, da filosofia, da história; e a sua ficção constrói-se  labirinticamente, em apurado trabalho de teia. É a própria escritora quem nos diz:
... me devoto a um trabalho que se apóia num tecido delicado e frágil, que me negará seus recursos secretos logo que eu perca a coragem de desestruturar-me permanentemente, com o intuito de enfiar a faca no coração da linguagem, da vida, que é o coração do homem.[...] Sou a que trabalha sobre o material mais inexistente, que é a criação, de tessitura de aranha, mas que ainda assim é um fio que se produz pelo esforço da saliva e como tal abandona lastro e brilho.

Assim, nossa autora, indiretamente, se assume como Dédalo – o grande arquiteto mítico – construtora de labirintos enquanto trama uma estrutura permanentemente desestruturante. Desafiando os deuses no instante da criação – tal qual Aracne – ela se transmuda em aranha, fiandeira do itinerário que a levará aos meandros do homem. Pela perseverante desestruturação de si, rasga continuamente a medula da linguagem-fonte, interna-se no “coração do homem” – seu vigor expressional – fazendo renascer, potente, uma nova Linguagem.
Com efeito, o labirinto que, segundo Nélida Piñon, vai-se emaranhando na estrutura de seu dizer e de seu fazer literários, constitui a imagem nuclear do romance Fundador. Não só pelo labiríntico jogo de espelhos que se realiza entre personagens reduplicados e espaço, tempo e enunciados entrecruzados, não só pelas labirínticas veredas pelas quais todos tramitam à busca de seus objetivos, como pelos intrincados caminhos trilhados por terras sagradas, jamais tocadas por outros pés que não o dele próprio e pela arquitetura da casa de Fundador e da cidade por ele construídas. Possuindo labirintos fora e dentro, a casa guarda, em sua medula, a espada de Sir Tristram, enquanto a cidade, situada no centro do vale, teria crescido circundando a morada do patriarca – núcleo da cidade – com as demais casas erigidas com a face voltada para ela. Há também que se falar da cidade símbolo – Jerusalém.
O primeiro movimento ritualístico do alicerce arcaico-ontofânico do romance introduz, em cena, o delírio da personagem que dá título ao livro. Uma febre por ele contraída  representando a febre da viagem de regressum ad uterum. Desvario e exaltação tumultuam o ser deste homem obstinado, que, enquanto alucina, proclama, a construção da sua cidade. É insistente, no texto, a marcação de que Fundador se manteve sob o efeito de uma febre alta pelo mítico tempo de “quarenta dias e quarenta noites”. Assim, o tempo do delírio do personagem realiza-se em contraponto com o tempo bíblico da anunciação de Noé e a fundação de uma outra raça que, fecunda, se multiplicasse pelas novas terras. O mito do dilúvio, aqui, representa o cataclismo cósmico de Fundador.
Tremores de febre, incêndio de temperatura, desmoronamento da vida anterior funcionam, figurativamente, como a destruição de tudo que o cerca obtendo ele, em conseqüência, passaporte para empreender a jornada que o transportará a uma outra dimensão – a do tempo simbólico de sua gênese para fundar em terras virgens, sua cidade e realizar seu encontro. Neste clima mítico, Fundador, alucina, gritando a sua história, à espera de que Teodorico da Antióquia – o cartógrafo que acabara de descobrir rotas marítimas a se vencerem pela primeira vez – lhe indicasse o rumo de terras germinais, como Deus fizera com Noé. Terras em que, ao edificar sua cidade – um novo Reino – pudesse igualmente estabelecer uma ordem diferente no seu mundo e assinalar uma aliança viril com os nove homens que seqüestrara e, aos quais, por escolha própria, denominou Heitor, César, Alexandre, Joshua, David, Judas Macabeus, Artur, Charlemagne, Geoffrey de Bouillon. Tais nomes correspondem aos líderes de nove célebres façanhas históricas: três gregas, três judaicas, três cristãs. São heróis que envidaram esforços para empreender feitos, criando outros horizontes à humanidade. Todos eles estão ligados, de alguma maneira, à Palestina – Jerusalém.
O labirinto por que Fundador se adentra vai sendo construído por ele próprio, tendo por planta o mapa de Teodorico de Antióquia e por fio, a espada de Sir Tristram. Ao propor-se fundar cidade, o personagem fecunda intrincado caminho que o direciona, sempre, ao centro, à origem. Como um deus, quer edificar a cidade, da mesma maneira como foi esculpido o homem, no Gênesis. Proclama Fundador:
  
Ainda que se consagre o vale em que nos transformamos em pó, para sermos iguais entre nós, e igual diante da natureza. O vale que existia quando ainda teimávamos em ser carne, e cujo pó sempre conteve mais existência do que a vida que representávamos. Todos os ancestrais ali em repouso, e era o pó que já fomos, o que iríamos ser. Um pó com que formaremos o barro, de tal mistura sagrada construindo a cidade” (FUN,p.150).(Grifos nossos)

 

Este vale – a Terra-Mãe, de cujo pó se fez o primeiro homem e em cujo ventre abriga toda a humanidade – gerará em suas entranhas a sacra mistura e dará à luz a cidade de Fundador. Como um Dédalo, em espirais labirínticas, Fundador vai construindo as sendas onduladas de seu território sagrado. Constrói três centros, um dentro do outro, num jogo de encaixes especulares. O primeiro centro – suas terras – situadas no ventre da Mater matricis; o segundo centro – a sua cidade, erigida no âmago de suas terras; o terceiro centro – a sua casa construída no coração da cidade, com labirintos fora e dentro.  A porta do labirinto, conduto ao futuro solo, se abre quando, em plena demanda pela “terra prometida”, Fundador pressente o território divino e exclama:
          — Que outra paisagem Deus criou tão formosa?
          não duvidei que as terras se iniciassem ali, eu partindo para seu centro; e eu me dizia: Fundador, dever de homem é acertar; o coração revelou-me o segredo logo que as cruzei pela primeira vez; Deus sabe como se reconhece o advento de um novo solo, como quando ele prepara o paraíso: tão simples, o cavalo avançou e, coisa esquisita, eu não estava mais nas terras de antes, e não peçam que eu lhes explique, apenas sabia que encontrara as regiões de Teodorico de Antióquia, deixando atrás raça que me pariu para eu abdicar de seus favores;
          Sabem o que fiz? Larguei o animal, tirei as botas, aguardando o sentimento    iniciar-se pela sola dos pés: veio como se eu urinasse molhando a roupa, fazendo barulho de vidro partido em mil pedaços, ou leite derramado o sexo na prisão ainda, mas o corpo bendizendo a euforia que iluminava até os meus cabelos, quando tudo cede para que o homem impere solitário gritei, para o caso de Deus desconhecer o que se passava: – Vamos, Fundador, faça-se homem e chore! (FUN,p.118-119)(Grifos nossos)
         
A partida para o centro, o coração revelando o segredo, a mudança mágica para espaços plenos de mistério, a sensação do novo  iniciando-se pela sola dos pés, o barulho de vidro partido em mil pedaços e o choro do nascimento configuram um labirinto de idéias, de imagens, de emoções que Fundador começa a construir e em que passa a penetrar.  O labirinto, sem dúvida, tem uma dupla razão de ser: permitir ou vedar o acesso a determinado lugar onde nem todos podem, indistintamente, insinuar-se. Somente os iniciados chegam ao seu centro, verdadeiro santuário destinado aos enigmas. E é este local de mistério que Fundador funda.
É sob a égide  do entusiasmo, da paixão, da bravura  que a cidade de Fundador será originada. Para ele a construção da cidade equivale à arquitetura de sua própria vida. Por isto, ao fincar pé na geografia demarcada pelo mapa do Mestre Teodorico da Antióquia, ao tocar naquele solo existencial, Fundador, para cunhar atitude, retirou a espada da bainha e:
 Espetou-a lentamente no chão. Nenhum gesto inútil. Buscando um ventre. O cabo rangia impelido pela própria vibração. Apreciava a espada submersa naquele território, assinalava sua passagem, a vontade de permanecer. Nunca mais se beneficiando do seu brado assassino e irmão. – Aqui iniciarei meu reino, acrescentou cerimonioso. Levantar a primeira casa em torno da espada de Sir Tristram, expressava poder. Projeto a que se dedicou com paixão. (FUN,p.32)

Não consulta Deus sobre seus interesses, mas também não o despreza, exigindo-lhe, inclusive, em prece, que só criatura de seu sangue lograsse extrair do chão a espada de Sir Tristram , para ter a certeza de que sua progenitura ainda circularia pela terra após sua morte. (FUN. p. 32) É certo que, na tradição cristã, a espada constitui arma nobre pertencente aos cavaleiros e aos heróis. Há que lembrar a espada do rei Artur – Excalibur – que quer dizer “Corta Aço” e cuja história muito se assemelha à de Fundador, na tenacidade de seus feitos, cortando os empecilhos para atingir seu desiderato, além da semelhança com a retirada da espada do solo.
Contudo, sem mulheres seria impossível dar continuidade ao projeto. Saem, então, floresta a dentro, em completo silêncio,  verdadeiro labirinto, sem rumo definido, guiados apenas pelo instinto do líder, “à procura do barro, a forma original, a ânfora onde se aquieta o sangue”.(FUN,p.65)  Procurar o barro é perscrutar o que se modela e onde se plantam sementes. Por conseguinte, para fazer origem urge buscar-se a matriz, a mulher-terra, o centro onde se possa semear homens. Peregrinando por atalhos chegam a um convento de mulheres. Neste espaço sagrado, realiza-se a primeira batalha travada entre Fundador e Monja – a Madre Superiora. É um combate de palavras resolutas, em que cada qual procura demonstrar a sua acuidade no trato com as próprias crenças. Assegura-se, inegavelmente, entre eles, um rito de estimulação de forças genesíacas, o que já nos indica a tensão de dois daimons.. Congeminam-se e digladiam-se duas potências em contraponto: Fundador construindo sua cidade, seus descendentes, sua história; a mulher construindo sua capela, na periferia da cidade, sua vida espiritual, seus desígnios divinos. Ambos determinados para suas próprias destinações, complementam-se: ele buscando o Deus na terra e ela tentando tocar o Deus no céu .
Na noite de seu casamento – realizado na ainda semente de cidade e tendo por celebrante o próprio Fundador – a mulher apresenta-se ao leito nupcial com vestes de religiosa, e
          Fundador franziu o rosto fingindo apreciar a veste branca, reservada para cerimônias maiores, das grandes noites de verão. Delicado quis desfazer-se da luz de vela. A mulher exigindo porém a claridade. Para apreciar as mãos que lhe iam arrancando o traje, o véu da cabeça, seus cabelos a descoberto, iluminado o homem que pela primeira vez perdia os dedos na abundância. (FUN, p. 145)
         
Numa descrição altamente poética do ato sexual, o narrador redesenha uma mistura de carne, alma,  necessidade de romper a “terra” de Monja com “raízes” que necessitam de mais solo. Mas não é Fundador que detém, sozinho, o poder de dirigir a ação. A mulher, com olhar atrevido, na semi-claridade exigida por ela, acompanha, com seu corpo que “assumira o peso e o vigor da árvore” – árvore da vida, das promissoras sementeiras de uma estirpe – todo desenlace, deixando o homem desconfiado. Num instinto de cultivador, lavrando território fecundo,
          Fundador iniciou a guerra. No centro do corpo da mulher estava o desejo, o centro de seu desejo no corpo da mulher. O poço, ele buscava. Pequeno, delicado. Um orifício de areia a água amplia. Indo e vindo – ondas do mar, Fundador, a caça, animal disparado, a flecha no corpo, agrilhoado, o grito na estepe da pele, fronteira sempre, espasmo da terra porque ingressou o sêmen, a dor, amolecimento de invertebrado, larva talvez, a podridão das frutas, atividade do sangue, mucosas livres – até atingir o reino da mulher que o obrigava ao atrevimento. (FUN, p. 176)          

Há que se observar que o centro do seu desejo está no centro do corpo da Monja, da cidade Monja, da terra Monja. No centro do centro, no sagrado fundamental. [...] “um orifício de areia” – o útero – configura o foco de onde emanará o movimento da unidade para a multiplicidade, do interior para o exterior, do não manifestado para o manifesto, do eterno para o temporal – o filho que herdará sua grei. Assim, para ordenar e desenvolver a cidade, Fundador cria leis a que ele mesmo está submisso:
          — [...]. Determino que se repudie a mulher que não concebeu em dezoito meses, ainda que ela mereça outro casamento, se sobrarem homens para isto. Cumpre-se a vontade de Deus segundo a terra em que se vive. (FUN, p. 154)

Percebe-se, na vigência da lei que, acima de qualquer coisa, está o ato de procriar. Há que se multiplicar o sangue dos homens intrépidos que iniciaram a aventura da origem, principalmente o sangue do líder, a fim de se cumprir o desígnio que Fundador se atribuiu: inaugurar uma cidade, uma raça As construções, assim como as palavras, congregam-se e desenham universos que, na arquitetura, retratam um corpo à imagem e semelhança daquele que as cria – o homem, no caso, Fundador. Tal corpo conquista um espaço geográfico-existencial, crava-se numa topografia – delimitada no mapa de Teodorico da Antióquia – e, diferenciado, vibrando, recebe um nome e transforma-se num ser: a cidade.
Lida como cidade do sonho – aquilo que preenche, no sujeito, o espaço do desejo – a centrada cidade de Fundador tem por objetivo espelhar a Nova Jerusalém, reafirmando a perfeição do homem, a
cidade da virtude civilizada, a cidade planificada a partir da casa central, onde residiria a dinâmica da civilização. Afirma Barthes que a cidade é um discurso. É, “verdadeiramente uma linguagem: fala aos seus habitantes, falamos a nossa cidade, onde nos encontramos simplesmente quando a habitamos, a percorremos, a olhamos.” (Barthes, 1987, p, 184) Portanto, laborando a cidade, Fundador inaugura novo dizer, balbucia palavras que se transformarão em linguagem, discurso a ser organizado por seus empreendedores. Querendo, portanto, construir a certeza dos rumos de sangue seu espraiando-se pela terra e pelos tempos, Fundador cuida, especialmente, da espada de Sir Tristram e diante de sua obra, são estes os seus sentimentos:

          Enternecia-o a exuberância do filho e a cidade em que investira energia, esperma e veneno – apreciar a espada enfiada na terra. Cuidando de fabricar em torno pequenos labirintos, para que o filho, a mulher e outros não chegassem até ali. Proibira-lhes a passagem. Os que colaboraram na construção, tudo fizeram para esquecer aquele santuário. E Fundador agradecia-lhes pelo olhar. (FUN,p.222)

Ao fabricar labirintos em volta da espada, o patriarca do clã arquiteta entrecruzamentos de caminhos constituindo, o seu achado, um impasse e um mistério. Quem nele se adentrar necessita descobrir rotas que conduzam ao seu objetivo, pois o labirinto circunscreve um emaranhado de veredas, a fim de retardar a chegada do viajante ao centro anunciador da presença de algo precioso ou sagrado. O centro protegido pelo labirinto, conforme sabemos, será reservado àquele que, através das provas de iniciação – os desvios do labirinto – ter-se-á mostrado digno de atingir à revelação misteriosa. Tal é o desejo de Fundador, pois, como pudemos atestar, somente deverá aproximar-se da espada e desarraigá-la do chão aquele que trouxer, nas veias, o sangue do patriarca, estabelecendo, assim, o discurso nelideano, intensa intertextualidade com o acervo lendário da Idade Média.
No entanto, contrariamente  a esta memória cravada no solo, Fundador prega o esquecimento, abraçando o duplo aspecto de Mnemósine e Lete. É fato que a memória representa uma função que atinge categorias psicológicas como o tempo e o eu. O poder de rememoração constitui uma conquista, e, de sua memória arcaica, Fundador só quer deixar, de concreto, a espada. Quaisquer outras histórias, que fossem transmitidas pela oralidade, pois poemas, diários, escritos avulsos deveriam ser queimados. Também peças artesanais de barro e de madeira, comprovantes estéticos de uma cultura vívida, deveriam ser escondidos bem longe da cidade, debaixo da terra.
Desta forma o romance Fundador  põe-nos diante não de cronologias, mas de genealogias. Contemporâneas do tempo original, as realidades primordiais como Gaia/Fundador e Ouranós/Monja permanecem o fundamento inabalável do mundo. Como sua força está na própria physis – nas profundezas da terra e nas excelências do céu – Monja e Fundador nada querem deixar que limite uma memória temporal. Assim:
          Sentaram-se um em frente do outro. Não se moviam. As aranhas em torno trabalhavam tão delicadas. Nasciam as teias cansadas, Fundador e Monja em trabalho idêntico. Ele lhe mostrou os livros em que assinalavam há anos suas respectivas aventuras. [...]
          Fundador acendeu a lareira, as manifestações viris da chama. Tomou dos grandes livros, documentos, mapas tudo enfim a que se dedicaram desde a fundação da cidade. Gestos lentos. Projetando inicialmente os próprios livros. A paixão saltava do fogo. Sentia dor de adaga no peito. [...] Monja apreciava.
          — Também não havia mais nada a se escrever,  falou Monja com estranha doçura. – E nunca mais regressarei a esta casa.
          — Nem para a minha morte? disse Fundador.
          — Acabamos de morrer nestes instantes. Fomos sepultados e ambos estivemos presentes. (FUN,p.251-253)

Fundador e Monja, similares às aranhas, teceram a beleza e a fragilidade da criação, num contraponto de deusa-Atená-Monja e humano-Aracne-Fundador. Como a aranha – criadora cósmica – o casal ocupa a função de tecelãos da realidade, senhores do destino. As qualidades de demiurgo, de pressagiadora, de condutora de almas e de intercessora entre as duas realidades – humana e divina – doam, à aranha, o simbolismo de um grau superior de iniciação, ou seja, representa uma classe de iniciados como o são Monja e Fundador que já alcançaram a interioridade, a potência realizadora do ser intuitivo e meditativo. Lembremos que ambos estão todo o tempo tramitando no centro, representado pela terra virgem, pela edificação da casa e da capela, pois construir uma ou outra é repetir a criação do mundo, assim como faz a aranha ao tecer a teia. Este universo, entretanto, prescinde de qualquer memória.
É exatamente por isso que tanto um como o outro se desfazem de todas as provas que possam servir à história da cidade, deixando campo aberto ao mistério, pois a queima daquele universo – documentos de vida – impõe, aos advindos no tempo, a procura da palavra perdida, encerrando, no seio do fogo, a revelação de toda uma existência. Tanto que, no dizer de Monja, foram eles mesmos os transformados em cinzas: “Acabamos de morrer nestes instantes. Fomos sepultados e ambos estivemos presentes”.
Como a fênix, miticamente, Monja e Fundador, na busca consciente do esquecimento, denunciam um inconsciente e irresistível desejo de sobreviver, bem como de ressurgir, apontando para o triunfo da vida sobre a morte. Tornar-se cinza é fazer-se mistério. O segredo, contudo, é um privilégio do poder ligado à idéia de tesouro. E nada se faz mais cobiçado do que aquilo que se esconde. Logo, ser segredo é expor-se à busca. Feitos cinza no presente, ambos – Fundador e Monja – renascerão na curiosidade do futuro. Assim, esquecimento da terra, da cidade, da casa,  transfigura-se em lembranças, em memória..
   Tal memória, em Fundador, representa a Jerusalém dos territórios internos. O ser, que procura o labirinto chega a encontrar o locus medular. O homem que, durante tempos, erra por tais emaranhados caminhos, descobre, finalmente, aorigem de suas peregrinações, o mistério último de sua pesquisa: o deus escondido que é ele mesmo, sua sagrada congeminação de homem-animal, de deus-diabo, de animus-anima, pois no final do labirinto o o sacer fundamental o espreita, minotauramente.
A narrativa arquiteta-se como o próprio labirinto, espécie de santuário escondido, conduzindo personagens e leitores ao interior de si mesmos. Neste caso, a transformação do “eu” dos personagens, operada no centro do labirinto, confirma a passagem das trevas à luz, marcando a vitória do espiritual sobre o material, do permanente sobre o perecível, da inteligência sobre o instinto, do saber sobre a violência.  Sem dúvida, a idéia de labirinto entifica-se no coração desta narrativa que podemos definir, como um metafísico jogo de espelhos. Diz-nos Santarcangeli que o centro do labirinto contém sempre uma mutação caracterizada pela vida e pela morte. Prefigura, portanto, a passagem de uma vida a outra, do mundo das aparências ao da essência, da bestialidade carnal à humanidade espiritual.       
Os relatos narrativos de Fundador colocam em abstratas e desorientadoras simetrias as imagens, simultaneamente antinômicas e intercambiais da morte e da imortalidade, do presente e do passado, do passado e do futuro, do Todo e da parte. Por isso os corredores da terra narrativa vão-se bifurcando, conduzindo-nos a espaços-reflexos idênticos ao primeiro. Com tais repetições, o narrador encerra-se num labirinto que, sem dúvida, se identifica com o universo, pois, de qualquer lugar em que nos encontremos, no mundo ou na narrativa de Nélida Piñon, estamos sempre num centro de indiscerníveis reflexos, de inextrincáveis correspondências. Deste modo, o fio de Ariadne tece, no labiríntico tapete narracional, o enredo de Fundador. 
Os fios vão-se, costurando, ponto atrás, ponto à frente, nos bastidores do tear narrativo. Muitas vezes emaranham-se as meadas umas às outras, condensando personagens, repetindo-se espaços, misturando-se tempos, reproduzindo-se falas. O ziguezague narracional, por fim, circunscreve um desenho mandalístico. Objetivando reencontrar a harmonia, em meio ao caos que o circunda, o homem tem contado com o poder integrador do mandala. O caráter fragmentário de nossas vidas constitui uma expressão deste desequilíbrio. Em sânscrito, o termo mandala significa círculo.
O círculo, pensando junguianamente, vem a ser o símbolo do self, centro organizador, fonte das imagens oníricas, representante da totalidade da psique. Seja presente na adoração primitiva do sol ou nas religiões modernas, em mitos ou em sonhos, nos mandalas ou nos planejamentos das cidades – lembremos a cidade de Fundador – o círculo emblematiza a totalidade.

A narrativa também desenha, para sua criação, figurações circulares, à medida que está sendo projetada por um mapa que não só demarca inventadas posições de espaço como imaginadas marcações de tempo. Perquirindo o fio, o tecido narracional autocontempla-se, desconstrói o estatuído, tece-se, destecendo modelos eleitos. A organicidade  narracional demonstra que o mundo é um labirinto do qual é impossível fugir, pois todos os caminhos desembocaram, realmente, em Jerusalém: a terra, a cidade,  a casa primordial.

PIÑON, Nélida. Fundador. 2ª ed. Rio de Janeiro, Labor do Brasil, 1976. Todas as citações de Fundador   contidas neste trabalho estão assinaladas com a abreviatura FUN.

Quanto ao dono da espada – transformação de Tristão em Tristram – temos a esclarecer que no século XV, por volta de 1470, Sir Thomas Malory compilou o vasto Lancelote em prosa e outras fontes numa só obra, impressa em 1845, sob o título de A Morte de Artur. Elucida-nos Jean Markale (Markale, 1989, p.33 ) que Malory, exímio conhecedor das lendas arturianas, retirou um pouco de cada obra em que encontrou detalhes interessantes. Desta forma, colocou, deliberadamente, Tristão entre os cavaleiros de Artur, mesmo sendo sua lenda totalmente estranha ao ciclo da Távola Redonda. Assim, por contaminação histórica e semântica – artifício já presente no imaginário medieval – podemos ler, na ficção nelideana, pela menção a Tristram, o célebre e amoroso cavaleiro Tristão da lenda celta como  potencial dono da espada que Teodorico da Antióquia ofereceu a Fundador

BARTHES, Roland. Semiologia e urbanismo. A aventura semiótica. Trad: Maria de Santa Cruz. Lisboa, Edições 70, 1987,      
          p. 184.

SANTARCANGELI, Paolo. Les livres des Labyrinthes: Histoire d'un mythe et dans symbole. Trad: (do italiano) Monique
            Lacal. Paris, Gallimard, 1967, p. 216-219.

 

 


 
 
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