Aguiar Maria Alice
Doutora em Teoria Literária.
Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ
e Professora Titular da Universidade
Salgado de Oliveira – UNIVERSO
Falar sobre mito é esgueirar-se por território de areias movediças, onde cada pequena movimentação gera deslocamento para novo espaço conceitual. Muitas são as interpretações que se têm sobre o mito. Aqui, privilegiamos uma leitura do mito da origem, pois a reminiscência dos primórdios, o culto à inauguralidade desempenham papel preponderante no movimento da existência humana, falando-nos sobre o que é e como é o homem no seu modo de ser.
Assim, o tema daorigem manifesta-se como uma jurisdição polêmica do pensar e do ser que, engastados numa temporalidade atual, solicitam uma garantia de tempos primordiais e uma previsão de épocas futuras. Perscrutar origens não se caracteriza tão somente pela revisão de assinaladas eras míticas ou históricas. Singulariza-se, sim, por uma carência existencial que só obtém sentido quando se descobre o lastro genealógico próprio e das coisas objetivas, apreendendo-se, concomitantemente, a dimensão do devir. O tempo das origens revela a essência da realidade presente, e o mito institui-se como matriz fundamental de todo viver humano.
Logo, conhecer os mitos é tentar depreender o segredo da origem das coisas; é recobrar, no mais recôndito de nós mesmos, o mistério e passar a conviver com ele, na sinfonia do cosmos. É desvendar a frincha secreta através da qual as inesgotáveis forças do universo invadem todas as manifestações culturais humanas: as religiões, as filosofias, as artes, os esquemas sociais do homem primitivo e histórico, as descobertas fundamentais da ciência e da tecnologia, os sonhos. Todas estas categorias emergem no halo mágico do mito. Se a literatura é arte e se a arte é uma categoria que emerge no halo mágico do mito, literatura e mito imbricam-se, já que ‘o artista - espião do inconsciente – fala, no mutável código da história, o imutável do homem na comunhão com tudo e com o todo’.
E porque a voz das Musas encarna a palavra? Assim como na Teogonia, de Hesíodo, cujo canto irrompe a partir do nome que o nomeia – a palavra Musa - chancela a força das deusas que puseram em marcha a história dos deuses e dos homens pelo poder do feminino, Nélida Piñon – escritora brasileira - e Isabel Allende – escritora peruana - também doam às personagens femininas dos contos ‘Colheita’ e ‘Duas palavras’, respectivamente, a arte e a magia de narrar. Ambas as personagens, cada uma a seu modo, saem do espaço privado reservado às mulheres e investem para o espaço público, antes reservado somente aos homens, fazendo da conquista da palavra importante capital cultural pela recusa social à exclusão. Elas se inovam na astúcia verbal de narradoras com seu discurso tomado de cor, de cheiros, de imagens da vida do cotidiano, contando fatos da universalidade humana.
Problematizam questões indicativas, historicamente, à submissão e à insubmissão da mulher, ultrapassando os impasses postos na representação do feminino, ao tecer e retecer um inusitado fio no mapa da geografia existencial de suas personagens.
Na Teogonia, Hesíodo diz:
Pelas Musas heliconíades comecemos a cantar/ Elas têm grande e divino o Monte Hélicon.
Assim conta Homero, logo no primeiro canto da Ilíada:
Canta ó Musa a ira de Aquiles, filho de Peleu, que incontáveis males trouxe às hostes dos aqueus.
A Odisséia começa com este apelo:
Musa, narra-me as aventuras do herói engenhoso, que após saquear a sagrada fortaleza de Tróia, errou por tantíssimos lugares vendo as cidades e conhecendo o pensamento de tantos povos e, no mar, sofreu tantas angústias no coração, tentando preservar a sua vida e o repatriamento de seus companheiros, sem contudo salvá-los malgrado seu; [...]. Começa onde te apraz, deusa filha de Zeus, e conta-as a nós também..
O canto, pelo que lemos, irrompe a partir do nome que o nomeia em sua força numinosa: a palavra musa.
Em grego, Ékousin quer dizer “têm”, ou seja, ter, ocupar, habitar, manter, suster. Theós, deus, significa o divino genérico para além da diferença dos sexos, enquanto Theá, deusa, é a divindade feminina. Daí, temos Hê theós, significando ser divino afetado por um signo feminino: Theai, deusas.
O nome da fala humana é “audé”, e “phoné”, quer dizer voz. E mais uma vez, na Odisséia, lê-se; “Deinè theós audêesa” significando “Terrível deusa com voz humana”, ao referenciar-se, Homero, a Circe e a Calipso. Voz humana, portanto é feminino, apontando para a origem da humanidade em se realizando sob o signo da supremacia de uma única força: a mulher.
Em ‘Colheita’, de Nélida Piñon, a mulher é, de certa forma, abandonada pelo homem que ama e que a ama, já que decide partir pois,
Competiam-lhe andanças, traçar as linhas finais de um mapa cuja composição havia se iniciado e ele sabia hesitante. Explicou à mulher que para amar melhor não dispensava o mundo, a transgressão das leis, os distúrbios dos pássaros migratórios. (p. 107),
buscando todas essas coisas em outras gentes e outras terras. A mulher se lamenta, confia no choro, mas ele insiste na independência já que todos os de sua raça adotaram comportamento de potro. (p.108). E sai de casa, dizendo-lhe esta última frase: Com você conheci o paraíso.
Em sua ausência, a mulher vai acumulando sentimentos diversos, experimentando novas sensações e atitudes: primeiro tranca-se em casa no sentido de preservar a vida de modo mais intenso para quando o homem voltasse. É na casa - ilha paradisíaca - que a personagem vai recolher força e origem para que a sua vida tenha tempo ilimitado. Símbolo, por excelência, de um centro espiritual fundador, a ilha-casa representa a miniatura do mundo, a imagem perfeita do Cosmos, por encerrar, em si, um valor sacral concentrado e consagrado ao reconhecimento, numa visão matriarcal-feminina da realidade.
Coleta o conhecimento em nível do perspectívico, do tocável, enquanto guarda e homenageia o retrato do homem como sua presença na casa. E coleta o co-nascimento em nível do aperspectívico, do não-visto, quando quebra o porta-retrato que marcava a presença do homem na casa, corta o cabelo rente à cabeça, alegra as cores das roupas – passa a usar vermelho. Recolhe, assim, o perfeito conhecimento, aquele que advém do co-nascimento, no sentido de que todo autêntico conhecimento abarca a totalidade.
À tópica da casa, então, tramita entre a utopia - espaço geográfico do desejo, de onde a personagem sairá encharcada de fontes e memória - e da utopia - espaço existencial, onde o desejo terá seu habitáculo à deriva, podendo ser semeado no a-espaço do universo.
À casa, desta forma, faz-se metáfora do önphalos, do mais recôndito do "si-mesmo", da utópica-atópica busca da totalidade transcendente, espaço congregador das antinomias, pois, a salvação da personagem se fará à custa de seus próprios escombros. Do caos, nascerá a estrela dançarina, como nos diz Nietzsche, em Assim falou Zaratustra.
E, quando já se tornava penoso em excesso para a mulher conservar-se dentro dos limites da casa, o homem retorna. Ela o beija na testa, fez-lhe ver seu sofrimento, dizendo-lhe como foi difícil suportar até sua presença no porta-retrato, ao que ele pergunta: Onde estive então nesta casa? A resposta da mulher: Procure-se e, em achando haveremos de conversar. E o homem procura-se Debaixo do sofá, da mesa sobre a cama, entre os lençóis, mesmo no galinheiro ele procurou, sempre prosseguindo, quase lhe perguntava; estou quente ou frio. A mulher não seguia suas buscas, agasalhada em um longo casaco de lã, agora descascava batatas imitando as mulheres que encontram alegria neste engenho. [p.110]. Já estava desistindo de se achar, quando encontra o retrato sobre o armário, com o vidro da moldura todo quebrado. Naquele momento, enquanto ele se vê estilhaçado nos cacos de vidro do porta-retrato, percebendo que sua partida o tornou partido, das fraturas de vidro que estão na mão do homem, ela, a mulher, vai recompondo a sua integridade.
O homem, sem saber mais o que fazer, pede-lhe seu corpo e seu amor. A mulher lhe dá e, imediatamente após o ato, chama-lhe para ir a cozinha. Faz da comida um verdadeiro jogo da prova. Prova no sentido de saber o sabor da terra como algo que sabe a si própria; como prova a ser vencida para que ultrapasse o estágio de noviciatura - inicia a superposição de bordados que se vão tecer sobre o risco que traça sua busca existencial e o risco que orna sua procura de expressão, sua escritura.
Frente à comida instaura-se, em nós, um ato de recebimento, um ato divino. Compreendendo o ato de alimentar-se desde a sua origem, entenderemos que o seu retorno se faz em forma de centelhas energéticas que nos sagram e consagram à vida.
É nesta hora que o homem tenta falar, contar suas aventuras quando das peregrinações que fez pelo mundo. E é nesta hora que a mulher come-lhe a palavra impedindo-lhe a expressão. Impede-lhe, no entanto, expressando-se no seu lugar, ruminando e digerindo cada palavra. Ouçamos o narrador:
E ela, não deixando ele contar o que fora o registro de sua vida , ia substituindo com palavras dela então o que ela havia sim vivido. E de tal modo falava como se ela é que houvesse abandonado a aldeia, feito campanhas abolicionistas, inaugurado pontes, vencido domínios marítimos, conhecido mulheres e homens, e entre eles se perdendo pois quem sabe não seria de sua vocação reconhecer pelo amor as criaturas.[...] E tanto ela ia relatando os longos anos de sua espera, um cotidiano que em sua boca alcançava vigor, que temia ele interromper um só momento o que ela projetava dentro da casa como se cuspisse pérolas, cachorros miniaturas, e uma grama viçosa mesmo a pretexto de viver junto com ela as coisas que ele havia vivido sozinho. Pois quanto mais ela adensava a narrativa, mais ele sentia que além de a ter ferido com seu profundo conhecimento da terra, o seu profundo conhecimento da terra afinal não valia nada.[...] à medida que as virtudes da mulher o sufocavam, as suas vitórias e experiências iam-se transformando em uma massa confusa, desorientada, já não sabendo ele o que fazer dela. [p.112-115].
A mulher comprazia-se da arte de seu canto, de sua narrativa, de seu vigor, de sua identidade feminina, pois, segundo Nietzsche, a perfeição deste mundo oposto à realidade imperfeitamente inteligível de todos os dias, a consciência profunda da natureza reparadora, salutar do sono e do sonho, são, simbolicamente, o análogo, ao mesmo tempo, da aptidão para a adivinhação e da arte em geral, pelas quais a vida se torna possível e digna de ser vivida. Por isso, a mulher
Comprazia-se com a sua nova paixão, o mundo que ela descobriu ao retorno do homem. Ele jogou o retrato picado no lixo e seu gesto não sofreu ainda desta vez advertência. Os atos favoreciam a claridade e para não esgotar as tarefas a que pretendia dedicar-se, ele foi arrumando a casa passou pano molhado nos armários, fingido ouvi-la ia esquecendo a terra no arrebato da limpeza. E quando a cozinha se apresentou imaculada, ele recomeçou tudo de novo, então descascando frutas para a compota enquanto ela fornecia histórias indispensáveis ao mundo que precisaria apreender uma vez que a ele pretendia dedicar-se para sempre. Mas de tal modo agora arrebatava-se que parecia distraído, como se pudesse dispensar as palavras encantadas da mulher para adotar afinal o seu universo. (p. 115-116).
Enquanto Nélida Piñon não dá nome à sua personagem, chamando-a mulher, Quando se fez homem encontrou a mulher”, a personagem de Isabel Allende “Tinha o nome de Belisa Crepusculário, não por fé de batismo ou escolha de sua mãe, mas porque ela própria o procurou até o encontrar e com ele se ataviou.
Ora, sabemos que a invocação do nome evoca o ser e dar nome é possuir. Sendo coisa viva, o nome se realiza pleno de aspectos mágicos. Se conhecer o nome de alguém equivale a possuir poder sobre ela, ao nominar-se, Belisa Crepusculário se possui, e, ao denominar ‘mulher’ à sua personagem, Nélida confere ao feminino o poder de possuir-se a si mesma.
Assim, ao mesmo tempo em que a personagem do conto de Nélida se realiza pela força da aparente inonimada ‘mulher’ pluralizando o singular do feminino – Belisa Crepusculário também tem a marca da universalidade à medida que o nome do conto – Duas palavras – se concretiza no nome da personagem: duas palavras e cada uma impulsionando a sugestão de duas outras – Belisa, bela e lisa, Crepusculário, crepúsculo e escapulário. Se crepúsculo quer dizer ocaso, entardecer, escapulário significa amuleto, atadura, ligadura. Assim, ligando fim ao princípio, o ocaso congrega-se ao amuleto bento da palavra mágica com que Belisa Crepusculário presenteia seus clientes.
Belisa vem ao mundo e cresce numa região inóspita,
(...)até completar doze anos não teve outra ocupação nem virtude senão sobreviver à fome e à fadiga de séculos. Durante uma seca interminável, coube-lhe enterrar quatro irmãos menores e, quando compreendeu que chegava a sua vez, decidiu começar a andar pelas planícies em direção ao mar, para ver, se na viagem, conseguia enganar a morte. (p. 14)
Em meio a estas intempéries, Belisa Crepusculário salvou a vida e descobriu a escrita. A partir daí, começou a vender palavras nas feiras, de aldeia em aldeia. Num manhã de agosto, em meio a uma venda de argumentos de justiça a um velho que solicitava a sua pensão há dezessete anos, surgem os homens do Coronel, ladeado pelo Mulato, leal capanga do Coronel. O Mulato vem em direção a ela:
- Procuro-a – gritou apontando-a com o chicote enrolado e, antes que acabasse de dizer isto, dois homens caíram em cima da mulher, atropelando o toldo e quebrando o tinteiro, amarraram-lhe pés e mãos e puseram-na atravessada como fardo de marinheiro sobre a garupa do cavalo do Mulato. Depois começaram a galopar em direção às colinas. (p. 16)
O Coronel, homem marginal, subversivo, estava cansado de guerras inúteis e derrotas e queria ser presidente, entrar nas aldeias sob arcos de triunfo, entre bandeiras coloridas e aplausos. Para isso precisava do serviço de Belisa Crepusculário, que passaria a escrever os seus discursos. Sua idéia era ser eleito pelo voto popular nos comícios de dezembro. Não queria tomar o governo à força e não ter o afeto do povo. Quer comprar as palavras de Belisa por um discurso. Belisa faz o discurso e dá ao Coronel para ler. Mas, para sua surpresa, ele não sabe ler; só sabe fazer guerra.
Ela leu em voz alta o discurso. Leu-o três vezes para que o cliente pudesse gravá-lo na memória. Quando terminou viu a emoção no rosto dos homens da tropa que se haviam juntado para escuta-la e notou que os olhos amarelos do Coronel brilhavam de entusiasmo, certo de que, com essas palavas a cadeira presidencial seria sua.” (p.18). Satisfeito, o Coronel pergunta-lhe quanto custa o serviço e tem como resposta: “Um peso, Coronel [...] Além disso tem direito a uma prenda. [...]
A prenda equivalia a uma palavra secreta para cada cinqüenta centavos que lhe pagassem. O coronel apesar de não demonstrar interesse pela oferta recebeu-a por delicadeza. Então
Ela se aproximou sem pressa da cadeira de couro onde ele estava sentado e inclinou-se para lhe dar seu presente. Então o homem sentiu o cheiro de animal montês que saía daquela mulher, o calor de incêndio irradiado pelos quadris, o roçar terrível de seus cabelos, o perfume de hortelã-pimenta sussurrando-lhe ao ouvido as duas palavras secretas a que tinha direito. (p.19).
O Coronel repetiu o discurso inúmeras vezes nos meses de setembro, outubro e novembro e, por suas palavras ”refulgentes e duradouras” o discurso manteve-se intacto, sem desgaste, encantando pelo imprevisto da linguagem e pelo que ele prometia de interesse para toda comunidade. Enquanto falava, o Mulato e os outros capangas distribuíam bombons, chocolates, mas nada disto enchia os olhos do povo
(...) porque estavam deslumbrados pela clareza de suas propostas e pela lucidez poética de seus argumentos, contagiados pelo seu tremendo desejo de corrigir os erros da história e alegres pela primeira vez em sua vida.[p.20]
Mas o Coronel, cada vez com mais freqüência repetia para si mesmo as duas palavras secretas que Beliza Crepusculário lhe havia doado. E assim foi definhando, definhando, até que o Mulato, desesperado, procura por Crepusculário: Ela estava à sua espera. Guardou o tinteiro, dobrou o pano da barraca, pôs o xale nos ombros e, em silêncio montou na garupa do cavalo”. Diante do chefe, o Mulato falou:
- Coronel, trouxe esta bruxa para que lhe devolva as suas palavras e para que ela lhe devolva a hombridade – disse apontando o cano da espingarda para a nuca da mulher. O Coronel e Belisa Crepusculário olharam-se longamente, medindo-se à distância. Os homens compreenderam, então, que seu chefe já não podia se desfazer do feitiço das palavras endemoninhadas, porque todos puderam ver os olhos carnívoros do puma tornarem-se mansos quando ele avançou e lhe pegou a mão.(p.21)
Percebe-se, portanto, que tanto a “mulher” do conto de Nélida quanto Belisa Crepusculário do conto de Isabel Allende detém o poder da narrativa, a fascinação da palavra. São elas que, como as Musas de Hesíodo e de Homero, cada uma a seu modo, sai do espaço privado reservado às mulheres e investe para o espaço público, antes reservado somente aos homens, fazendo da conquista da palavra importante capital cultural pela recusa social à exclusão.
Se a “mulher” de Colheita, de tal modo falava como se ela é que houvesse abandonado a aldeia, feito campanhas abolicionistas, inaugurado pontes,[...], etc., assumindo, mesmo estando sempre dentro de casa, o espaço público, Belisa Crepusculário não só enfrenta tal espaço como detém o poder da palavra escrita e o fascínio da narração.
Ambas tomam para si a palavra de ordem, com seu discurso tomado de cor, de cheiros, de imagens da vida do cotidiano, contando fatos da universalidade humana. Problematizam questões indicativas, historicamente, à submissão e à insubmissão da mulher, ultrapassando os impasses postos na representação do feminino, ao tecer e retecer um inusitado fio no mapa de sua geografia existencial, chancelando a força das deusas que puseram em marcha a história dos deuses e dos homens pelo poder do feminino.
Há, em Nélida Piñon e em Isabel Allende, um rompimento com o machismo imperante na nossa cultura. Os contos, se gestam na mente, transitam, em verdade, das vísceras à palavra falada que explora o território da ‘audé’ - fala humana – e ‘phoné’, palavra feminina que indica voz.
As personagens se vão revelando aos poucos e, aos poucos, vão tomando contornos precisos, cada uma com sua própria voz, sua biografia, seu caráter, suas manhas. E as histórias desdobram-se, lentamente, até chegar aos estratos mais profundos do ser. As duas pisam com muito cuidado no solo que alimenta seu imaginário, porque cada ato, cada palavra, cada intenção obedece a um traçado que comporá o desenho final da existência.
Contar e contar... é o que ambas as personagens querem fazer e aprendem a fazer. Assim, a escritura das duas contistas intenta dar voz a quem não a tem ou a quem tem sido silenciado, sem se preocupar em explicar os mistérios do universo e sim, simplesmente, contar fatos das conversações privadas, cheias de compaixão.
É evidente que a força da insubmissão não está em atos extremos, mas na firmeza de uma posição de identidade, vivendo, ambas, a vida, como instinto de crescimento, de duração, da acumulação de energia, de potência, inventando o seu imperativo categórico. A liberdade que buscam não se realiza no ser livre de quê, mas no ser livre para quê, no sentido de destinação nietzscheana.
Sem dúvida, Nélida e Allende revisitam a questão de gênero de forma singular, pois, não só constatam a diferença, como também consideram de que maneira foram projetadas as subjetividades pessoais e coletivas, trazendo à luz o conflito entre homens e mulheres, redefinindo formas de representar a realidade social e de intervir nela.
Os conflitos se revelam quando se rompe o equilíbrio dinâmico entre o feminino e o masculino. Quando um pólo prevalece sobre o outro, domina-o, subalterniza-o como sempre ocorreu na história. É este desequilíbrio que tatua a história das relações de gênero como uma via-sacra de sofrimento para as mulheres. A superação de tais distorções só acontecerá de fizermos valer, em todos os sentidos, a referência valorativa básica da reciprocidade, da parceria, da cooperação, da vivência democrática e da convergência nas diferenças.
Nos contos em questão, ficamos diante de duas potências femininas amadurecidas, cuja humanidade, levada a termo entre dores e humilhações vêm à luz, surpreendendo o masculino que deixa de ver apenas uma situação opositiva na sua representação, como idéia de complemento e de limite, para alçá-la à condição de existência.
Pela restauração da dignidade do feminino, o homem e a mulher dos contos tornam-se mais completos, sem preconceitos e sem reservas, compreendendo-se nas suas diferenças. Enriquecem-se, ambos, ao tornarem-se algo em si mesmos, ao desenharem um mundo para si, por causa de um Outro. Ambos os homens – porque as mulheres assim o permitiram – viram o mundo das duas mulheres impregnado de uma intimidade que os instigou, espantou, tocou. Ambas as mulheres caminham pelo território masculino, não como um homem castrado, mas como mulheres inteiras.
No momento final do conto, homens e mulheres encontram suas solidões específicas e se conjugam como dois seres de identidades autônomas; tanto o feminino quanto o masculino sabendo que podem transitar no mundo do outro sem perder sua inteireza. Muito pelo contrário, ganhando sua identidade e sua humanidade, não na confusão da igualdade, mas na confluência da diferença.
Trançando Mythos - narrativa de caráter poético que recorre aos deuses e ao mistério na descrição do real, fios que tecem a história humana pela interferência da voz das Musas - e, através dos Mitos - conteúdo da história da sociedade – Nélida Piñon e Isabel Allende tramam e emaranham os fios laçados pelo poder e potência da voz, elemento feminino, representando, ambas as personagens, as deusas, não que puseram, mas que põem, em marcha, a história dos deuses e dos homens, descerrada pela palavra, vigor feminino numinado pelas
Musas: “mulher” e Belisa Crepusculário.
Ao recuperar os dois semas - Mythos, e Mitos - não podíamos deixar de recuperar igualmente, as figuras míticas femininas das Moiras - que fundam o mundo feminino à medida que ela é representação da periodicidade, da renovação, da transformação, da ruptura e do nascimento e de Mnemosine.
Destarte, o ciclo – movimento uniforme e rotativo – pode ser lido como um gesto de ligação entre:
- Mnemosine, mãe das Musas – que mantém viva a memória da história;
- as Moiras – que tecem e interrompem o fio do transcurso dos homens pela vida como lhes aprouver e que ameaçam a pujança do próprio Zeus, já que nem este pode transgredir a lei imposta por elas, sem colocar em perigo a ordem do cosmo, nem pode mudar aquilo que por elas é tecido;
- o destino da humanidade, e das as Musas - cantoras divinas, cujos coros e hinos alegram o coração dos mortais e dos Imortais, já que sua função era presidir ao pensamento sob todas as suas formas - sabedoria, eloqüência, persuasão - capazes de serenar querelas e restabelecer a paz entre os homens.
É o que fazem a Mulher, de ‘Colheita’ e Belisa Crepusculário de ‘Duas Palavras’.
Referências Bibliográficas
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BRANDÃO Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. Petrópolis, RJ, Vozes, 2Vol, 1991.
HESÌODO. Origem dos Deuses – Teogonia. Estudo e trad. Jaa Torrano. São Paulo, RosWitha Kemph, 1986.
HOMERO. A Ilíada.(Em forma de Narrativa). Trad. e adap. Fernando C. de Araújo Gomes. Rio de Janeiro, Tecnoprint, s.d.
-------------. A Odisséia. Tradução: Jaime Bruna, São Paulo, Editora Cultrix Ltda, 1989.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. In: Obras Incompletas. Tradução e notas: Rubens Rodrigues Torres Filho, Rio de Janeiro, Nova Cultural, 1987.
PIÑON, Nélida. Sala de Armas. - 3ª edição, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1989.
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