Nélida Piñon
 
 
 
 
 
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resumos

A Árvore do Conhecimento, velha adivinha,  e a vocação feminina de recriar o verbo em Madeira feita cruz de Nélida Piñon
Fuente: Artigo  apresentado na ANPOLL, 2002, Gramado RS e publicado no livro Refazendo Nós, organizado por Zahidé L. Muzart, Editora Mulheres, 2003. 
 
Aguiar Maria Alice


Doutora em Teoria Literária.
Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ
e Professora Titular da Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO


Madeira feita cruz , se inscreve na insígnia da origem. Tal insígnia se assenta sobre dois eixos contraditórios e complementares: a sagração de Pedro e a insurreição de Ana, personagens-centro da narrativa. Pedro vive a experiência mítica como liturgia da repetição e Ana viola os padrões estabelecidos, para inaugurar novo jogo da vida.
No romance, há um capítulo aparentemente descosido da trama que nucleariza a questãoda inauguralidade e da transgressão da personagem feminina: uma menina inominada, produto das elucubrações de Ana, a insurreta. Impregnada de pedra, madeira e silêncio, Ana, durante toda a narrativa, apresenta-se como uma pessoa tímida, sofreada, reprimida. Não há voz viva da personagem.

Ana não fala. São os outros que falam com ela ou por ela. No entanto, Ana vive cerebrinamente. O monólogo interior flui na urdidura textual, maneira pela qual ficamos sabendo da violência de seus sentimentos de culpa e opressão, guardados sob aparente máscara de docilidade. E, sendo Menina matriz de Ana, ela se apresenta regendo a orquestra da reinvenção do mito do paraíso. É preciso que ela reinvente, por sobre a origem inventada, uma outra origem em que ela possa se soerguer e sair do círculo que a aprisiona: o mundo criado pelos homens, pela religião.

Assim, a cena ficcional inaugura-se com uma fala imponente, seguida de um gesto suntuoso que celebra o momento da anunciação do mundo - “uma mão espalmada anunciando o começo” (p:81). Após a anunciação solene deste começo, um menino e uma  menina são inseridos na história, para juntos, viverem a experiência do contato com a Árvore do Conhecimento do bem e do mal, desconstruindo, todavia, os passos de Adão e Eva.

A menina assume a fala - lembremos que Ana é afásica - e relata para o menino o Gênesis, numa versão própria.  A sua história repetida “veio do escuro só o escuro existia e nada mais constrangia, pois, não havendo o que se lhe opusesse, tornava-se o apenas necessário”. Até que “uma porção sólida do escuro se desfez” (p:85), fazendo surgir a luz. Feita a claridade, o Deus descobre “o princípio do excesso” (p:86), por ter tido a ousadia de constituir o início de todas as coisas. A partir disto, cria a montanha, o mar, os animais pequenos. Finalmente, pelo mistério da noite e do dia — a separação dos elementos — o Criador soluciona um problema, mas deixa, novazio do espaço, a solidão.

É interessante observar que, para a menina — diversa da visão do menino — Deus cria o mundo com uma grande sensação de cansaço, sentimento que a contamina também ao recontar a criação que está sendo feita por ela. Após tais considerações, ela dá por terminada a história, sem, no entanto, chegar à criação do homem, deixando a narração suspensa, a meio caminho, com o mundo pleno do sentimento de solidão.

Frente à insistência do menino em ser criado, a menina responde: “Somos fraqueza que não se criou completamente” (p:87). Assim, sua vocação para repetir o verbo como história já contada interrompe-se no centro da narrativa. O menino exige-se criado, solicita a segunda parte da história, ao que ela responde: “Não existe segunda parte” (p:87). Numa primeira instância, a menina, mais consciente do trauma do nascimento e do labirinto de solidão por onde se enveredou uma vez e por onde se embrenha todo ser humano, quer-se recolhida no Éden sem ter de enfrentar a expulsão.

Após pequeno interregno, retorna a tensão do diálogo das crianças que  continuam suas cogitações sobre o mundo criado ou a criar-se. Surge, entre eles, a lembrança do pecado que, para a menina, “é o verdadeiramente contato” (p:87), pois foi o pecado que lhes possibilitou tornarem-se humanos. Ao reviver a primeira história, a menina o faz assumindo o papel de narradora e fundando um espetáculo teatral exemplar, pois ambos, como atores, vão desempenhar papéis no palco do mundo.

A dramatização inicia-se quando, ao montar um cenário – um tronco e um pequeno galho -, as crianças insinuam a simbólica do Gênesis:

Um grande tronco ao lado do fogo, resolvem colocá-lo de pé, pretendiam-no uma árvore; um galho menor, coisa que rastejava, puseram sobre a agora árvore. A menina o corpo apalpava-se, no galho, encostada na árvore, atenta como se o ouvisse.

— Ele falou, menino, o galho.
— O que disse?
— Vou sempre repetir o que ele disser, de modo que facilmente conversaremos: — Ao se arrancar o que jaz intacto, se pratica o bem. (Mº) — Pergunta-lhe se podemos comer de tudo, sem que por havermos comido estejamos sujeitos às penalidades.
— Sem cansaço, por ser velha adivinhada, ela fingia, próxima ao galho, consertá-lo. Num minuto em que se entristecia pelo suposto a não acontecer, a importância de transmitir quando se surpreendia ferida pelo que ouvira:
— A liberdade está em se expor a perder o que se recebeu. (Mº)— É o que ele fala, menina? [...]
— Inutilizando o existente, arrancarei a árvore da verdade, nem seu fruto tocando.
— Não, menina, a maldição cairá sobre ti. [...]. Trêmulo, o menino como da terra a colher as suas raízes, colado ao tronco, faz força, até jogá-lo ao chão: sem voz, o galho. — Derrubei a árvore, menina. Que faremos?
— Nada, esperaremos que tudo se transforme em pecado, e nele inscritos nos salvemos um dia.  (p:87-89)

No trecho, a transfiguração do mito de Adão e Eva se faz clara. Ao representá-lo, porém, a menina desconstrói o paradigma, já que abdicará daquilo que se instituiu como verdade e não tocará no fruto da árvore. Isto - diz o menino - fará com que a maldição caia sobre ela, ou seja, menina será amaldiçoada independente de comer ou não o fruto do pecado. É importante ressaltar que no capítulo anterior, Ana tem um sonho que vai ser o impulso de sua futura insurreição. Sente frio, fome, chora, “independente das distrações do galho do caminho” (p:80), galho que a transpôs  para o reconhecimento de um recomeço.

O mito do paraíso desenvolve três estruturas fundamentais: a imanência, a transcendência e a decadência. Enquanto imanência, o homem precisa emergir num país e instalar-se numa paisagem: um jardim, onde ele tem, como atividade, o serviço prestado a Deus, uma árvore do conhecimento do bem e do mal e a sociedade de uma mulher como uma necessidade para o homem. Nesta história, Menina e  Menino constroem o espaço jardim, co-participam dele fincando, no chão, o galho que, simbolicamente, faz o papel da Árvore do Conhecimento e estabelecem a sociedade da mulher — menina — como necessidade do homem — menino.

A estrutura da transcendência realiza-se pela hominização do homem e é simbolizada, no mito, pela figura da serpente. A transcendência retira o homem da imanência de uma vida inconsciente, desvelando as possibilidades do fruto proibido, pois, no dia em que eles comerem do fruto, seus olhos abrir-se-ão para o conhecimento do bem e do mal, possibilitando-os ser como Deus.

No texto em questão, a serpente representa o próprio galho que representa a menina já que, à indagação do menino:
Pergunta-lhe se podemos comer de tudo, sem que estejamos sujeitos às penalidades?. Sem cansaço, por ser velha adivinhada ela fingia, próxima ao galho, consertá-lo” [...] e responde - “A liberdade está em se expor a perder o que se recebeu” (p:88).

Assim, a serpente, fazendo-se voz pela voz da menina, abre o caminho à consciência, participa da criação do homem como homem, traz a presença da transcendência na imanência, o espírito. A vergonha,  tão discutida pelas crianças, é o sentimento que os faz descobrirem-se humanos.

Todavia, a escolha do menino é a de enfrentar as fantasias dos impulsos somente quando tiver crescido, mas a menina, atenta à vida, mostra que não há como escolher. A força dos impulsos representa uma necessidade — ananke — assim como potencializar a vida também o é, pois não exercemos o poder de não experimentar o viver, enquanto vivos. Tal potencialização, no entanto, só pode ser atualizada pelo contato com o galho-árvore, pelaassunção da queda.

É certo que a criação do homem, no mito, clarifica-se ainda mais na punição. Na hora dos castigos, pela prática dos atos transgressores, a menina declara que nada há a fazer: - Esperaremos que tudo se transforme em pecado e nele inscritos nos salvemos um dia” (p:88). Todavia, após a experiência da queda, o menino da ficção nelideana quer reinserir-se na sua própria história e identificar-se como irmão da menina e como alguém que tenha um nome.

Como conhecer o nome é exercer um domínio sobre o ser, já que nomear é possuir, a menina, insurreta às leis e às normas já estabelecidas, lamenta-se por não poder esquecer que estas leis existam. Nesta ambientação, a menina compõe um lúdico diálogo, para reiniciar a repetição de uma outra história dentro de uma outra, já existente. O resultado estético obtido pela mise-en-abîme emaranha-nos num verdadeiro folheamento de discursos superpostos, numa construção descontrutora. Assim, no espelhamento do mise-en-abîme, como figuras arquetípicas representativas de Adão e Eva, as duas crianças — cosmicizando o caos — darão início a seu novo mundo. A um mundo de interrogações e questionamentos. O momento da rubrica cênica se antecipa a este jogo de dramatizações:

Menino pequeno sentado no chão, o fogo aceso, a madeira queimando afoga o inverno crescido fora: no chão, um vaso, água dentro a matar a sede, súbito a menina a seu lado olha o fogo. [...] Sentados, posição de antes. Quietos, o frio castigando a chuva, o vento o que sensível tomba; não se arriscariam se nada tentando em definitivo falar, falassem um pouco. A menina pressentiu no silêncio o esquema sobre o qual tomavam uma decisão.
(p.82)

É, pois, neste clima quase monástico, litúrgico, prenhe de possibilidades inauguradoras, que a menina pressente uma tomada de de-cisão, termo que, por sua vez implica etimologicamente em cisão, corte, ruptura, conotada pelo prefixo de, significando afastamento e origem. Neste caso, como de-cisão, perdura a separação e a união do fundar e fundamentar. Um sobrevém ao outro. Esclarece-nos Martin Heidegger (1971:p.97) que A de-cisão é um circular, um circular de ser e ente um em torno do outro. Logo, o fundar emerge no seio da revelação da de-cisão como alguma coisa que é e que por si mesma exige a fundação.
O pensamento sobre o fogo, concebido como força criadora do mundo, veio de Heráclito. Acredita o filósofo o que mundo institui-se como um jogo em termos físicos: do fogo consigo mesmo. Do acordar para o novo impulso de formação do mundo e do verter-se nas formas da multiplicidade faz derivar a hybris . Por isto, o mundo se apresenta cheio de culpa, de injustiça, de sofrimento, de contradições.

Não é o caso, por exemplo, das crianças inominadas do capítulo em tela. Na pureza da origem — sem marcas até de nomes — como infantes, não dotadas ainda da fala legisladora, mais próximas de formulações não contaminadas pela cultura, elas se abrem ao jogo criador do mundo. É Nietzsche quem nos esclarece que perante o olhar de fogo de Heráclito, não subsiste nenhuma gota de injustiça no mundo e nos alerta sobre a possibilidade de o fogo puro assumir formas impuras, pois, neste mundo,só o jogo do artista e da criançatem um existir e um perecer, um construir e um destruir,sem qualquer imputação moral,em inocência eternamente igual. Diz ele textualmente: E, assim como brincam o artista e a criança, assim brinca também o fogo eternamente ativo, constrói e destrói com inocência [NIETZSCHE, F. (1987b: p.228  af. 341].

No brincar, a menina detecta o que existe no mundo e vê, nisto, a possibilidade de recriar a sua criação, ousando o inexistente. Ela, nietzscheanamente, sente o impulso do jogo, clamando por outros horizontes à vida. Em contraponto, o menino repete o gesto primeiro daanunciação do começo, estendendo, simbolicamente, a mão.
Ao contrário do menino, frente à possibilidade de abrir-se ao novo, a menina admite a máscara, pois, proteicamente, “mudou a face como que emprestada.” (p:82). Observemos também, que os infantes — do latim in-fantes, etimologicamente significando ainda sem fala — se encontram, ritualisticamente, dentro do silêncio — prelúdio de abertura para uma revelação.

Segundo as tradições, houve um silêncio epifânico antes da criação e haverá um silêncio desvelador no final dos tempos. Logo, o silêncio alberga, em si, a grandiosidade de uma cerimônia religiosa, frutificadora do vir a ser. Predica-se queo Deus transformador chega à alma que faz reinar em si o silêncio. Os mistérios da vivência religiosa tais como a queda, o pecado, a graça são reconhecidos, em face de uma certeza intrínseca. Assim, a revelação produz-se na história do mundo e na história do menino e da menina, repetindo situações eternamente recorrentes na destinação humana.

Sabemos, porém, que a revelação transforma o sentido da História. A idéia de revelação, desta forma, significa que Deus funda um novo começo de todas as coisas. Deste modo, a conversa das crianças se estabelece  nucleando reflexões do novo a existir sobre o velho, do a fazer a se sobrepor ao já feito. Assim, no último movimento, a história retorna, ciclicamente, ao seu princípio, com um espalmar de mão anunciando o começo, re-começando um outro começo onde insere uma interrogação sobre o repetir: “A mão espalmada diante do novo que os ancestrais também tiveram como novo; quanto o novo em face do novo? (p:89).

Inegavelmente, é na teoria do Grande Tempo — dos grandes ciclos cosmogônicos — que o significado adquirido pela história se revela: a do tempo que se regenera ad infinitum e a do tempo-acabado, a que Eliade, explica como sendo o “fragmento entre dois infinitos a-temporais”. (ELIADE, M.  (1985):126}

Mas o que importa, aqui, é sublinhar o caráter circular do tempo cósmico, como acontece na história do menino e da menina de Madeira feita cruz, que parece repetir, infinitamente, o mesmo fenômeno — criação, destruição, nova criação — e configura o eterno repetir do ritmo fundamental do cosmos. Deste ciclo, sem princípio nem fim, as crianças só podem escapar por um ato de liberdade do espírito, sempre comandado pela menina.

Não obstante, o que resta é a “fábula a se descobrir” (p.89). E questionamos: seria a eterna procura da fábula o emblema da liberdade do espírito? Durante todo o tecido deste capítulo, estivemos frente a um texto ficcional que se negou, a cada momento de sua urdidura, a se fazer história. Há, sim, a descrição do gesto arquetípico  — a mão espalmada — contando fábulas relativas à origem, a transformação do caos em cosmos, o relato transfigurado doGênesis, a mão espalmada, novamente, e assim por diante — procurando afastar qualquer alusão a um tempo linear, cronológico, histórico.

Entrementes, a narrativa do recomeço termina com uma indagação: “quando o novo em face do novo?”. Tal pergunta descerra problematizações sobre a menina — a quem restava a fábula a se descobrir — e que era, apenas, “mão espalmada”. Observemos, pois, que há uma consciente redução da história do começo, restando tão somente o gesto de autoridade dos primórdios: a mão espalmada, não de Deus, mas de uma mulher.

Ao lermos tal fragmento, ficam-nos ao ouvido duas vozes que, embora falem da mesma tópica — a repetição — o fazem de formas opostas. Enquanto o menino reflete sobre a repetição do mesmo, ele o faz com um sentido de um eterno retorno do religare, do tempo da transcendência. A menina, porém, deixa escapar, em seu discurso, uma pontuação um tanto trágica, referente a este repetir. Lembra-nos o eco do daimon de  A gaia ciência atravessando o texto de  Madeira feita cruz e penetrando no profundo da solidão da menina, dizendo, pela palavra de Nietzsche (ibidem):

Esta existência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar; sem nada de novo; muito pelo contrário! A menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande, e de indizivelmente pequeno, tudo voltará a acontecer e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão... esta aranha também voltará a aparecer e este luar, entre as árvores, e este instante e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso e tu com ela, ínfima poeira das poeiras!.
..

Sem dúvida, nas filosóficas problematizações de Madeira feita cruz, vivificam-se tais questões axiais, tão bem orquestradas pela lucidez deste excerto de Nietzsche. Estes tons crucificam-se na madeira entalhada em texto, onde se sublevam as perguntas a propósito de todas estas coisas ditas; se ela — a menina — quer viver, se o quer outra vez, se o quer sempre até o infinito.

Não obstante, ao fazer-se a pergunta e ao viver a experiência, tal dilema passa a pesar sobre ela como grande fardo. Para o filósofo alemão, todavia, a única maneira de não se sentir o peso de tal fardo é amar-se a si mesmo e amar a vida; é ter vivido um instante prodigioso de forma a dar ao daimon esta resposta: “Tu és um deus: nunca ouvi palavras tão divinas”.

E este instante prodigioso a menina vive, e esta resposta a menina a dá, na pele de Ana, quando esta, num determinado momento do final da narrativa, entra pela casa de Pedro –  que pratica a liturgia da repetição e, que investindo-se de pilar da igreja católica quer redimir o mundo - irrompe por uma  sala secreta que só fora aberta para a família e para os amigos naquele momento, onde todos rezavam diante de um grande crucifixo que trazia um Cristo entalhado em madeira  e, imponentemente, pegando o machado, decepa a cabeça do Cristo.
O renascimento, neste capítulo de Madeira feita cruz,  se faz celebrar pelo jogo da criação, pela vontade de cultivar e fazer nascer valores insuspeitados, à espera de virem à luz. Isto se dá pelo ousar das crianças, principalmente da menina, que orquestra, todo o tempo, o recontar histórias.

Numa vocação para re-criar o verbo, a menina re-conta para o menino, com a autoridade de quem está consciente do que diz e do que faz,  a fábula que o narrador relata no princípio: fábula do começo do mundo e fábula do começo do mundo da linguagem que constrói este momento da narrativa. Conclamamos para ratificar esta posição, a dionisíaca voz de Zaratustra:

Inocência é a criança e esquecimento, um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer “sim”. Sim, meus irmãos, para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado “sim” o espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo
. (idem)

E Nélida Piñon, escritora-mulher pela sua vontade de potência, constrói outras produções expressionais e conquista o seu mundo da narrativa pela força motriz de uma linguagem-criança que, para o jogo da criação, consegue dizer o sagrado “sim” a um novo começo.
Finalizaremos com as palavras de Nélida Piñon sobre a personagem Ana, na entrevista que me deu e que está inserida na minha Tese de doutoramento (UFRJ, 1995). Diz ela:

A presença do Cristo, para mim é uma presença redentora. Mas Ana seria o Cristo, a cristã que não aceita de algum modo o farisaísmo, o mundo farisaico. [...]
Ela, Ana, foi humilhada pelo esquecimento. Há humilhação quando você é esquecida. Ela foi esquecida. Ela não tinha existência legal num universo que a pretexto de celebrar Cristo esquecera os homens que Cristo Jesus exaltara. [...] Ana quando dilapida, mutila, amputa, degola o Cristo ela o faz, certamente, para que o Cristo pudesse nascer de novo,  criando, assim, um novo princípio. É o crescimento dela. Ana era afásica. Não falava. Ela, no entanto, passa a falar através da mutilação. É uma rebelião social. É o grande gesto. Não um gesto teológico, mas uma insurreição social. É como os operários todos invadindo o palácio de inverno do Tzar, em Petersburgo,  ou a horda humana avançando no 14 de julho, em Paris. Só que é um gesto simbólico. É ela quem diz:“ — Eu sou”. É como se ela fizesse o Sermão da Montanha ao contrário.


CHEVALIER, J.  &  GHEERBRANT, A.  (1988)  p.457. Não deve ter sido gratuita a escolha de um galho para representar a árvore. Além de ser parte dela, a palavra que designa galho, em irlandês — craeb, croeb — é a mesma que serve para denominar a   vara mágica. Em muitos textos, esse galho (ou ramo) que possui poderosas qualidades mágicas, é o galho da macieira.

 


 
 
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© Piñon Produçoes, 2006