AGUIAR, Maria Alice
Dra. em Teoria Literária (UFRJ).
Prof. Adjunta de Teoria Literária da UERJ.
Prof. Titular Fundadora da UNIVERSO
Nossa comunicação tem, como objetivo, analisar a insurreição da personagem feminina de Madeira feita cruz, segundo romance de Nélida Piñon (1963). Nele, a insígnia da origem se planta sobre dois eixos contraditórios embora complementares: a sagração de Pedro e a insurreição de Ana. Pedro vive a experiência mítica como liturgia da repetição e Ana viola os padrões estabelecidos, para inaugurar novo jogo da vida.
Tramitam, em Madeira feita cruz, dois grupos de personagens. De um lado, a personagem núcleo é Pedro, desejando conduzir o seu mundo a uma re-consagração de símbolos pretéritos ao investir-se da imagem condensada de Pedro, o apóstolo, do carpinteiro José e de Cristo. Do outro lado, mantendo os ensinamentos cristãos da ceia — opão e o vinho — o pai de Ana e seu irmão mais querido, Isaías, “Irmão de machado na mão, cujas palavras admitiam as do pai, apenas” (MFC:28).
Ana é a única personagem que perpassa pelos dois horizontes — o de sua própria casa e o da casa do Taberneiro Pedro — para onde foi levada a trabalhar, após a morte de sua mãe. E, encharcada da experiência de vida, advinda da vida vivida nos dois espaços, assumindo, assim o campo interceccional, Ana faz-se núcleo do romance, sedimentando, aos poucos, seu desejo de insubmissão.
Em Madeira feita cruz, a personagem feminina, Ana, tentará instituir uma outra ordem, a partir do enigma do mal, do pecado, da culpa, da expiação, num horizonte mítico em que o sagrado primordial impera. O sagrado segundo a visão de Rudolf Otto (OTTO, 1992:229) , como tremendum fascinosum, energia que empresta ao mito o poder de assumir os dois lados da condição humana: seu aspecto tenebroso, mas de luminoso fascínio.
A permanência de Ana na casa paterna efetiva-se até o simbólico momento de o trigal da família ser devastado pelo fogo. O pai, então, delibera empregá-la na casa do santo taberneiro — Pedro. Ao saber-se escolhida para deixar o lar, ela se cala, guardando, no entanto, em seu íntimo, “uma ferocidade que se acumulava antes da partida” (MFC:61). O fogo, segundo Heráclito, se caracteriza como agente de transformação, pois todas as coisas nascem dele e a ele retornam. Portanto, a energia impulsionadora do movimento que Ana começa a realizar advém de um cataclismo acontecido em suas terras - externas e internas -, ocasionado pelo fogo.
No caminho para a casa de Pedro, vereda eivada de pontes a atravessar, Ana inaugura sua iniciação. Nesta viagem a personagem vai, simbolicamente, acompanhada pelo pai. No entanto, é bom frisar, por ser importante para nossas conjecturas finais, que Pedro, ao receber Ana, indaga ao pai sobre quando ele partiria de volta a sua casa, ao que ele responde: “Agora senhor, mesmo no escuro conheço a floresta” (MFC:65), demonstrando destemor diante de um espaço encharcado de ambivalente mistério. Há, igualmente, uma intimidade de Pedro com a floresta, por isso Pedro não insiste em que o pai de Ana fique e determina que a venha buscar em “um ano”.
É certo que os cortes do tempo — um ano, por exemplo — são comandados pelos rituais que regem a renovação das reservas alimentares, os rituais das colheitas asseguradoras da continuidade da vida de toda a comunidade. Um ano, desta forma, circunscreve o tempo de que Pedro necessita para a renovação de seus próprios valores espirituais e dos de sua comunidade. Para Ana, contudo, deixa de ser um sagrado tempo de repetição para transfigurar-se em emblema de ruptura. Entrementes, a idéia-chave do Ano Novo - retorno anual ao caos - se mantém, porque a jovem, ao fim deste tempo, inaugurará nova origem, fundando um outro princípio a renovar-se: sua individualidade.
Impregnada de pedra, madeira e silêncio, Ana, durante todo o ato narracional, apresenta-se como uma pessoa tímida, reprimida. Não há voz viva da personagem na narrativa. No entanto, Ana vive cerebrinamente. O monólogo interior flui na urdidura textual, maneira pela qual ficamos sabendo da violência de seus sentimentos de culpa e opressão, guardados sob aparente máscara de docilidade. Logo após o pai tê-la deixado na casa de Pedro e partido, um sonho da personagem implanta-se na narrativa. Ele elabora acontecimentos antigos de sua vida e marca o desejo que, no futuro, irá ela concretizar — romper com a problemática cristã da culpa e com a dependência do pai. Eis o sonho:
... em torno de uma Face, a luz. Sobrancelhas nítidas, olhos cortados de um azul, estranha Face, até o riso dos dentes joga saliva. Entre a luz, o reconhecimento da Face, o tumulto esclarecido de um semblante. Esticou a mão, não alcançando o escuro do seu brilho. Saía suor do seu dedo quando a Face se deixou tocar. Nada perguntara, talvez a tivera entre os seios. Olhou-a, respiração é motor ligado à procura de captações, a Face riu, torcida por dentro.
cessaram os suores e o rio passava, água fresca amontoada na pedra virgem, as primeiras passando, águas depois. Não viu a Face, se o outro lado do mundo existia, escureceu. Talvez espalhando ervas maduras no caminho.
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suas mãos, outra vez, de suores. A palma do rio, a mão escorregava água, recolheu-a molhada, desaparecendo suores ouviu grito de Isaías.
a nadar, Isaías alcançara a oração. Tivera-o como perdido, não tendo espanto de supô-lo morto. No grito que a água trouxe, ele explica a oração do mundo ter sido encontrada.
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rira Isaías, nadava com fúria, alcançaria as casas do mundo, aqui, gritou, comigo a oração do mundo, em minha mão, rindo muito. Onde? não quem perguntara, o carneiro também ria, onde?
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não entendeu, havia escuro. Como se outra margem existindo existisse tudo, a Face, cuja luz expunha o seu azul, gargalhou como cega e jamais tocada.(MFC:77-78) (Grifos nossos.)
Já na Antigüidade, a análise dos sonhos fazia parte das técnicas de existência. Assim, os sonhos eram vistos como “um oráculo que mora conosco”, ou “um profeta sempre pronto, um conselheiro incansável e silencioso” (FOUCAULT, 1985, v.III:14). Contudo, foi Freud o primeiro cientista que tentou explorar, empiricamente, o inconsciente, preconizando serem os sonhos um trabalho ligado a “restos diurnos”, associados ao desejo inconsciente do sujeito.
Na própria textura dos sonhos - onde se acumulam imagens que parecem contraditórias e ridículas e onde as coisas mais banais podem revestir-se de um aspecto fascinante ou aterrador - perde-se a noção de tempo e o espaço toma dimensões geralmente incompatíveis com a realidade representada. No entanto, decifrá-lo representa desocultar um desejo. Desta forma, o trabalho empreendido pela mente será lograr, trapacear, esquivar, mascarar, deslocar a transgressão que o desejo impõe, erguendo castelos de resistências.
Castelos, sim, mas de areia, pois, exposto o texto do sonho, enveredamo-nos pelas frestas de sua narrativa e procuramos realizar dois movimentos díspares e complementares: escavar e reconstruir. Segundo o psicanalista austríaco, este trabalho assemelha-se à escavação feita por um arqueólogo, de alguma morada destruída ou soterrada. A diferença está no fato de o analista trabalhar em melhores condições, pois já que aquilo com o que está tratando não é algo destruído, mas algo que ainda está vivo (FREUD, 1975, v.XXIII:293).
No sentido de tentar compreender a organização psíquica da personalidade de Ana, captamos, como relevante, a função de seu sonho pelas imagens simbólicas que nele latejam, onde conteúdos se dão a ler nas entrelinhas de situações vividas pela personagem e descritas como um pictograma a ser decifrado. No sonho, uma Face, um homem, que se transforma em Isaías (seu irmão mais querido) e Ana entrelaçam-se em águas correntes de um rio. As personagens - Face, homem, Isaías - condensam, a figura do Pai: tanto a do pai que a deixou em casa de Pedro, como a do Cristo que o pai lhe ensinou a respeitar, repetindo, sempre em sua própria casa, à mesa, o ritual do pão e do vinho.
Todavia, em seus devaneios, durante toda a narrativa, Ana insiste em declarar que pouco sabe sobre Deus e santos e nada compreende sobre igreja e devoção. Entrementes, no sonho, Isaías e a Face estão envolvidos com a oração do mundo. Isaías, em movimento, nadando no centro do rio, buscando, com fervor, a oração do mundo e a Face, como espectadora, gargalhando. Ana, por sua vez, faz-se representar, numa primeira leitura, pela água obedecida e pelo carneiro. Tanto a água obedecida como o carneiro afiguram-se como emblemas duplos, carreando, sob aparência tranqüila, grande energia revigoradora.
O carneiro, ardente, macho, instintivo, simboliza a força genésica que desperta o homem e o mundo, além de assegurar a recondução do ciclo vital (CHEVALIER, 1988:189). Por suas múltiplas funções nos tempos arcaicos, este animal, tornou-se, na liturgia cristã, uma variante do Cordeiro de Deus, oferecendo-se à morte, a fim de salvar os pecadores, assumindo não só a figuração de Cristo, mas a dos fiéis que, depois dele e nele, aceitam a morte expiatória.
Visto sob esta óptica, o carneiro condensa os personagens Pedro e Ana. Pedro, enquanto o fiel que seguirá os passos de Cristo, e Ana, enquanto símbolo cristão invertido, ou seja, aquela que vai redespertar a fim de assegurar a recondução de seu ciclo vital, com uma obstinação obcecada, encarnando um novo soter, não só da humanidade como de si própria. Ela busca o seu próprio eixo de existência, rebelando-se dos ditames culturais. Por sua vez, Isaías, Pedro e a Face - Deus representado por Cristo - assumem, para a jovem, o lugar da Lei, o lugar do Pai.
A representação da Face, no sonho, também se percebe bastante controvertida: em movimento simultâneo, esparge o brilho característico da santidade cristã e assume uma parte demoníaca, pois, casquinando, infunde, na beatífica atmosfera, ares de sarcasmo: a Face “cuja luz expunha o seu azul gargalhou como cega e jamais tocada”. Gargalhou por quê? Neste enovelado de imagens condensadas, fundidas, deslocadas que o sonho-texto aninha, percebe-se que o rio que atravessa o sonho num fluir de águas, desenha um curso, de igual modo ambivalente, configurando-se como morte e ressurreição. Em verdade, há uma Ana que vai morrer para que outra renasça. Ademais, o rio, assim como a Face, gargalham. Assinalando a existência ambígua de Ana com o curso de sua vida, ritma-se, no plano onírico, o curso do rio com “água fresca amontoada na pedra virgem, as primeiras passando, águas depois”. Gargalham pelo que há de vir.
A oração aponta para algo sagrado, impregnado de energia e autoridade, que se repete em uníssono, em ritmo homogêneo, instituindo-se modelagem de fórmulas eleitas. Desta sorte, enquanto a Lei estatuída - simbolizada no sonho pelas figuras masculinas - é obsessivamente procurada por Isaías, a possível ruptura desta lei - o rio Face - “gargalha como cega e jamais tocada”. Tal cegueira visionária remete-nos, num fluxo de sugestões textuais, à figura do adivinho Tirésias - cego para o mundo, porém vidente para as coisas da alma, representado, no momento, pelo inconsciente de Ana, onde pululam mensagens de potência e de liberação dos espartilhos nele contidos.
O rio e a Face, assim, irrompem, no espaço onírico, como um rio cósmico de onde tudo vem e para onde tudo retorna. Lemos, a Face jamais tocada, como o objeto perdido dodesejo, do qual nada sabemos. O rio, neste caso, um deslizamento de possibilidades de representação desta “Coisa” (Das Ding) inatingível, porém, causa da pulsão que seu próprio correr lhe imprime. Lembremos outra vez Heráclito, ao afirmar que não se pode banhar duas vezes na mesma água de um rio.
Sendo assim, exatamente porque o objeto é perdido a repetição será sempre repetiçãodiferenciada. E se a repetição é uma possibilidade de representação é porque o objeto, sendo perdido, possibilita sempre algo da ordem do novo, um novo que vai começar a se repetir. Seja realização de um desejo reprimido - Freud -, seja auto-representação espontânea e simbólica atual do inconsciente - Jung -, o sonho de Ana se faz altamente expressivo de seus sentimentos e da atitude que, mais tarde, assumirá perante os outros e perante ela própria: romper com o estatuído.
Se, por um lado, as figuras masculinas simbolizam a lei, por outro lado, também podem ser analisadas como imagens deslizantes que, por deslocamento, projetam a própria Ana, como futura detentora da lei que ela imprimirá a si mesma, iconoclastizando os ditames advindos do exterior. Daí, a pendulação simbólica, apresentada numa seqüência do texto de Nélida, onde se amalgamam luz e sombra, tumulto e esclarecimento, escuridão e brilho, medo e aconchego, águas de força corrente e águas obedecidas, o lado de cá e o lado de lá, o fim do mundo no começo das águas. O estado interno de tranqüilidade a que Ana conseguiu chegar, após o sonho permitiu-lhe continuar adentrada no fluxo de suas memórias quando, seguindo tal vereda, nos deparamos com suas lembranças sobre o jogo da árvore, incluído na seguinte cena: casa de Ana, todos à mesa, o pai praticando o ritual do pãoe do vinho, quando, ignorando a afasia de Ana, lhe indaga:
— Sabes, Ana, da existência do jogo da árvore?
Ana repousando a cabeça teve fome.
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— Pai, existe um jogo da árvore?
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— Olha, quero Ana compreendendo, Isaías. Vou lhes explicar o que no trabalho do machado todos fazem. É simples: inventa-se um motivo a se expressar, a seguir, dá-se-lhe a aparência dos gestos, e o machado, seguindo um acordo, ritma-se segundo o que se deixa representar. O corpo é pretexto de expressão, o próprio rosto. E o silêncio preserva a comunicação. Pois aprimora o movimento do machado no ar. Brinca-se de tudo, amor, caridade, cansaço, desejo de carne. (MFC:115-116) Grifos nossos.
Ana , ouvindo, apenas, toma conhecimento da existência do jogo, mas ainda não aprendeu a jogar. Está, sim, naquele momento decisório do lance das pedras vitais, mexendo, ao seu bel-prazer peões, reis e rainhas, para que possa desferir, na hora precisa, o seu xeque-mate. É interessante sublinhar, que, ao mandarem Ana às compras, se instala, na tecedura narrativa, a certeza da futura diferença em tudo.
Neste momento, somos endereçados ao sonho de Ana. O mercado a que a personagem foi enviada, localiza-se “depois da grande curva do rio”. À imagem do rio incorpora-se o sentido de curva, a grande curva que Ana projetará, em seu retorno, sua reviravolta existencial. Os preparativos daquela noite, indicados na citação, referem-se à ceia a ser realizada por Pedro após seu sacrifício no meio da floresta, e à abertura da porta de uma sala secreta, onde se encontra a imagem do Cristo de madeira, para ser adorada.
Ana demora em sua peregrinação ao mercado descansando sobre a pedra. A jovem presenteia-se este tempo — pois há intenso sentimento de prazer na personagem, cada vez que ela toma consciência da sua transgressão — e seu pensar curvo a envia, mais fortemente, ao desejo de rompimento com a fé de Pedro. O intenso silêncio de Ana remete-nos à idéia de infante.
Na hierarquia social, designa aquele a quem se nega a fala - in-fante. Todavia, este prefixo indicativo de negação - in - pode, igualmente, significar “dentro de” e fans, o falar na linguagem. Portanto, o infante é aquele que habita o verbo criando-se. Criança criada, não como particípio passado, mas como um pretérito em processo, um presente deslocando-se, projetando-se, fluindo. Este fluir metafórico amalgama-se, em nossa leitura, ao fluvium - rio que Ana tem de margear no sentido de ultrapassar seu ser criado - particípio passado - deixando fluir o seu ser em latência de criação. Por conseguinte, fluindo e flutuando, com seu pensar curvo, Ana vai traçando e trançando o itinerário de sua vida.
Enquanto Pedro, na sala secreta, reza fervorosamente junto com os outros, a nosso ver, a oração do mundo do sonho de Ana, a jovem, tranqüila, decide investir contra tudo o que estava emprestando, àquele lugar, ambiência de entrega e de fé. Então,
Uma mulher se levanta, ar dado a si feliz houvesse um uso devido, o corpo reagrupado de quem conhece cama, se imagina em repouso no aproveitamento integral, andava, vagar, eram as emoções diferentes, umas cansadas, outras com capricho que a emoção tem para se disfarçar, escorrega entre petrificadas sombras que rezam olhando o Cristo, orientadas por Pedro — dirige-se ao recanto da sala onde objetos menores, talvez as associações de Pedro se apoiassem neles, que ele esquecera de recolher, como enxada, machado, pá, estavam, sem dúvida utensílios que o homem usa no uso da terra; no cabo de um deles as mãos se arrepiam, segura-o, finge brincadeira. Detém-se diante do Cristo, experimenta feliz no sacudir o momento feliz, sorri para a madeira feita cruz, e faz o jogo da árvore.
— O que fazes, Ana, o que fazes ? — grita Maria, um grito de louca.
Pedro nada mais consegue dizer. (MFC:195,196)
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E o machado vibrava, rápido o movimento, cima e baixo, certeiros os impulsos, Ana ria, ternura mansa, os braços sentiam a respiração, cima e baixo, o machado pula, atinge no pescoço, em seguida o pescoço apura, fica fino, não há sangue que imortalize o corte, o pescoço mais fino, Ana feliz, o jogo da árvore, e se ama no ato, mais fina a ligação, súbito, pulo fora, decepada a cabeça do Cristo de madeira. (MFC, p.200) (Grifos nossos)
Eis a metamorfose de Ana: menina insegura na mulher firme, íntegra. Deslizando pela sala secreta, numa atitude de enfrentamento ao tempo da doxa, constituída pelas “petrificadas sombras que rezam, olhando o Cristo, orientadas por Pedro”, e engendrando, através dela, o tempo da paradoxa, a personagem age como quem, silenciosamente, grita: Tenho direito ao prazer!
Nesta cena, o corpo de Ana escorrega, as mãos arrepiam, os punhos vibram o machado numa direção certeira, de cima para baixo, sua boca ri, seus braços respiram, também, de cima para baixo, numa verdadeira cascata, refletindo todos os dilemas da violentação. No entanto, se o corpo é flexão, a língua também o é. Para que captássemos este instante, foi necessária uma reflexão das palavras e nas palavras para que pudesse surgir, enfim, a linguagem liberada de tudo que a recobre, de tudo que escamoteia o caráter flexional da língua.
Quanto mais interiorizado o ser, quanto mais dinâmicas se fazem suas evasões. Ao cortar a cabeça do Cristo, sem dúvida, Ana dilacera a autoridade, o governo, a ordem estabelecida. No mundo céltico — substrato cultural dos povos ibéricos de cujas tradições Nélida Piñon é uma guardiã — cortavam-se as cabeças dos inimigos vencidos e levavam-nas de volta a casa como troféu, simbolizando a força e o valor guerreiro do adversário. Logo, ao decepar o Cristo, a personagem está ritualizando o jogo da árvore, o jogo da guerra, o jogo do domínio e da dominação.
Se há de ter-se coragem de empunhar a Cruz, igualmente, há de ter-se coragem de empunhar o machado, ato supremo da iniciação de Ana. A personagem, assim, proclama a destruição dos universos tradicionais e a redução de seu ser a estados larvares, germinais, na esperança de criar liberdades inusitadas. Ela abole os sintagmas da história, encetando o momento auroral em que parece ver o mundo pela primeira vez. Rompendo com Cristo, Ana rompe com o centro, com a imputação da culpa, com o mal, com a punição. Há, nela, uma sensação de gozo em relação ao feito. Um gosto de carne. Um saber e um sabor de Eros. A personagem solta-se lassa, no banco, de pernas abertas, esquecendo-se, feliz, de seu pudor. Livre da moral cristã, Ana funda novo princípio no seu descentramento.
Afinal, por que ela decepa a cabeça de Cristo? Será que o conceito de Deus, para Ana, é despido de significação? Ou a dimensão da existência humana, da qual a religião faz parte, tem para ela um outro significado? Com efeito, analisaremos a atitude de Ana pela óptica do ateísmo, enveredando-nos, pelo pensamento de Ricoeur, a fim de resgatar outra significação para a visão religiosa de Ana.
Segundo este filósofo, o ateísmo coloca-se em posição intermediária entre a religião e a fé, pois ele olha, ao mesmo tempo, para trás - para aquilo que nega - e para frente - para aquilo que abre. Assim, no seu estado de escuta, antes de decepar a cabeça do Cristo, de tudo que depreendeu sobre religião, em Ana ficou a marca da culpa e o desejo de ouvir a palavra de libertação pura, não contagiada pelo interdito e pela condenação; a palavra que pregasse a cruz e a ressurreição de Cristo como o começo de uma vida criadora.
À luz deste enfoque, o pecado estaria sob a égide da lei, pertencendo ao modo de ser da existência humana aprisionada no círculo da violação, da culpabilidade. Para Ricoeur, é neste tecido roto que o ateísmo encontra a sua razão de ser, revelando, um duplo significado: de destruição e de libertação. É neste âmbito que queremos ler o ateísmo de Ana: de destruição, enquanto desejo de renovar as leis, de forma que o pecado pertença legalmente à existência e de libertação, enquanto possibilidade de promover uma outra fé, uma outra crença que congregue, em seus princípios, tanto a pureza, quanto a mácula.
A fé bíblica, conforme nos conta a História, representa o Deus da Trindade Cristã como um pai. E o que faz o ateísmo? Instrui-nos a abdicar da imagem do pai, assumindo a “Face como jamais tocada”. Logo, é esta recusa que Ana se impõe ao decepar a cabeça de Cristo — o pai. Superada como ídolo, a imagem do pai pode ser recuperada como símbolo, pois só se pode simbolizar aquilo que se perdeu, da mesma forma que só se pode perder aquilo que se possui. Ao readquirir a imagem do pai como símbolo, Ana instaura, inegavelmente, o fundamento do amor, nela, pois “é preciso que um ídolo morra para que comece a falar um símbolo do ser” (RICOUER, P. 1986:430-456).
Cortado o liame que a ligava simbolicamente ao pai, Ana libera-se, a fim de ser ela mesma. Inaugura-se como indivíduo. Volta para casa sozinha, atravessando a floresta noite adentro, com plena satisfação por ter abatido a árvore do mundo e plantado a árvore do seu mundo. As amarras, tecidas no interior de Ana, fendem-se e a personagem funda-se. Implanta-se como origem de uma outra Ana que está a nascer.
Para entalhar Madeira feita cruz, Nélida Piñon, também, edipicamente, rompe com o pai - representante da Lei - mas para dilacerar a ordem da sintaxe, dos significados, da construção das estruturas narracionais. Realmente, atravessam as formas familiares de representação, o repentino e a surpresa. Destituindo o pai como alguém que sabe sobre o gozo, Nélida Piñon desobstrui a superfície da fala doutrinada, libera singularidades acósmicas e funda a força libertadora da inusitada linguagem com que se expressa.
No jogo da árvore - cosmos vivo em perpétua regeneração da escritura - o seu dizer brinca de “amor, caridade, cansaço, desejo de carne”. Na paixão do escrever, embarca na deriva da norma, deixando-se levar pela perversa fruição das palavras. No gozo do discurso, eroticamente, mata o pai para brincar com o corpo da mãe — a língua materna. Lembremos Barthes ao dizer que o escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe: seja para o glorificar, seja para o embelezar, seja para o desmembrar (BARTHES, R. 1980 p.78). E o jogo da árvore-língua que Nélida pratica, leva-a até ao limite da “desfiguração”, transfigurando, iluminadamente, a Madeira feita cruz, pelo clarão da physis.
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