Redação
Em Porto Alegre, a escritora Nélida Piñon acaba de somar mais uma às quase 30 honrarias e premiações que já recebeu: o título de doutora honoris causa da PUCRS. Homenagens são quase uma rotina para a autora carioca: no ano passado, ela foi a primeira brasileira agraciada com o prêmio espanhol Príncipe de Astúrias, batendo best-sellers americanos como Philip Roth e Paul Auster. Também em 2005 Nélida conquistou o prêmio mais tradicional da literatura brasileira, o Jabuti, pela obra Vozes do Deserto. Qual o peso de tudo isso em sua obra? 'Orgulho, alegria', reconhece a primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, mas nada que interfira no solitário e árduo ofício da escrita. Prestes a lançar um livro de ensaios, Aprendiz de Homero, Nélida está às voltas também com um novo romance, sobre o qual ainda faz segredo: é preciso dar a ele mais tempo, justifica. Foi justamente sobre os meandros da fabulação de idéias e a sua relação com os leitores que a escritora falou em entrevista ao Cultura, além de reminiscências e projeções sobre a literatura e os escritores
Cultura - A senhora já recebeu muitos prêmios e honrarias. Essas deferências mudam sua relação com a escrita?
Nélida Piñon - Recebo comovida, contente, mas uma coisa que não pesa em mim é a consciência desses prêmios. A sensação que tive e tenho é a de que não escrevo com eles, não vivo com eles, não durmo nem acordo com eles. E isso me protege, porque não estou sendo um fantoche de mim mesma. Aceito com respeitosa naturalidade. Mas a escrita continua sendo a minha paixão solitária, difícil, cheia de dúvidas, hesitações, medos. Sempre que vou começar um romance tenho medo. Acho que escrever é um risco: você escreve sem rede de segurança.
Cultura - Ao longo dos anos, mudou seu processo de escrita?
Nélida - Muito. Por exemplo, eu era muito mais disciplinada. Conferia ao ato de criar uma sacralização: gestos, detalhes, ambiente. Hoje, dessacralizei totalmente o cenário: escrevo em qualquer lugar, em qualquer circunstância, no trem, nos aviões, nos aeroportos,nos minutos que tenho. Isso, para mim, foi uma grande conquista. Nem por isso deixo de sacralizar o grande texto.
Cultura - Já disseram que sua própria fala assemelha-se a fragmentos de um romance, como se a senhora estivesse sempre em processo de criação literária.
Nélida - Dizem que sou Sherezade conversando (risos), uma grande contadora de casos e que tenho mais do que minha própria memória: me aproprio das memórias pretéritas. Falo como se fosse Heródoto, como se fosse Homero, me sinto presente em todas as instâncias humanas. Me fascina a capacidade que você pode adquirir elaborando idéias através dos impulsos da imaginação. Quando forja idéias, você fatalmente forja peripécias. Em um discurso que escrevi há pouco, falei da epopéia da leitora Nélida, da maravilha de pensar em uma história que li quando menina, de um alemão do século 19, Karl May, que escreveu uma odisséia do western americano. Engendra um personagem chamado Old Shatterhand, um alemão culto que resolve ir para as pradarias americanas e lá conhece um chefe apache. Há uma cena, que já não sei mais se estou memorizando ou inventando, que é definitiva para a capacidade de inventar e convencer o leitor a suspender todas suas desconfianças e acreditar no que se está contando. Shatterhand pergunta ao apache: 'Quantos são os bandidos à nossa frente?'. O apache põe o ouvido na terra e diz: 'São tantos homens à frente, todos a cavalo, e um deles não tem um braço'. Tudo isso para dizer da capacidade humana de surpreender a si próprio e surpreender o outro. Essa perplexidade é um legado nosso.
Cultura - Qual o pacto que a senhora faz com seus leitores?
Nélida - Cada livro é um pacto, porque cada um tem sua história. E não é um pacto artificial, mas consentido. Por exemplo, quem lê meu livro de discursos, O Presumível Coração da América, observa que nunca começo agradecendo. É um resquício que guardo do mundo jornalístico: tudo meu começa forte. Só depois é que tem a etapa final da emoção. Acredito que se tem de agarrar o leitor. Ainda que, quando escrevo, o leitor não me dê ordens. Se pensar nele, vai me corromper, vou desviar-me das minhas rotas estéticas para agradar a alguém que não sei quem é, quando escrevo em nome de uma coletividade. Uso o instrumento mais socializado do mundo, que é a língua. Portanto, já estou reverenciando todos os que vão ler. Então, não sei como o leitor é ou iria idealizá-lo: um leitor que tenha doutorado, que me adore, seja submisso, coitadinho. Não quero, não penso no leitor. Mas sei que deve haver um pacto que vai nos habilitar a um mútuo entendimento.
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