Nélida Piñon
 
 
 
 
 
 
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"A população brasileira está condenada ao silêncio da própria alma"
Webjornal - Mensal - Edição 91 - Aracaju – 09 de julho a 13 de agosto de 2006

 

Defensora da palavra escrita como instrumento indispensável à sociedade, a escritora Nélida Piñon fala sobre literatura, globalização e a função do escritor.

Por José Roberto Mendes*

Como o próprio sobrenome denota, sua ascendência é espanhola, mas Nélida Piñon nasceu e foi criada no Rio de Janeiro, ou, mais precisamente, no bairro de Vila Isabel. Formou-se em jornalismo pela PUC-RJ e, não tardou muito, passou a trabalhar em revistas e jornais.
Estreou na literatura com o romance “Guia-mapa de Gabriel Arcanjo”, publicado em 1961, que trata do tema da relação dos mortais com Deus, através do pecado e do perdão. Empenhou-se, desde o início, pela renovação formal da linguagem e já em “Fundador”, publicado em 1969, abandonou o realismo que comandava a criação analógica do mundo literário. Seu romance seguinte foi “A Casa da Paixão”, de 1972, cujo tema discorre sobre o desejo e a iniciação sexual, tendo recebido o prêmio Mário de Andrade. Depois, vieram “Tebas do Meu Coração” (1974), “A Força do Destino” (1977), o autobiográfico “A República dos Sonhos” (1984), a denúncia política em “A Doce Canção de Caetana” (1987) e, mais recentemente, “Vozes do Deserto” (2004). Dedicou-se também aos contos e às crônicas, publicando, entre outros, “Tempo das Frutas” (1966) e “Até amanhã, outra vez” (1999).
Participou, no Brasil e no exterior, de muitos encontros, congressos e seminários, proferindo palestras e conferências sobre temas ligados à literatura e à cultura. Em 1989, foi eleita membro da Academia Brasileira de Letras, onde, sete anos mais tarde, tornou-se a primeira mulher a presidir a ABL, no ano do primeiro centenário da instituição. Sua obra está traduzida e publicada em diversos países, tendo sido agraciada por vários prêmios nacionais e internacionais, entre eles o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras de 2005, concedido pela fundação de mesmo nome, da Espanha.

BN - Como aconteceu no seu caso, o estímulo à leitura deve vir desde a infância, mas nem sempre isto é possível. De que maneira os pais devem estimular seus filhos à leitura?
NÉLIDA PIÑON
- Eu acho que o estímulo à leitura, de certo modo, deveria estar associado ao estímulo da vida. O que é viver? Para onde você está conduzindo o seu filho? Que portas abrir? Eu acho que cada porta que você abre para o seu filho, o livro passa junto. Você não pode realmente lançar essa criatura sua, que você ama, sem fazer ver a ela que o livro é um mestre, ensina a viver, é erótico, tem uma carnalidade, é uma aventura humana, é o portador do saber. E o saber torna você um sedutor, ou uma sedutora. Eu garanto a todo jovem que, como o saber se origina do livro, se ele gosta de ler, vai ser muito bem sucedido na questão erótica, porque o livro toca realmente o seu coração e lhe transmite galanterias. É, a meu juízo, uma das grandes conquistas da civilização.

BN - Com as novas tecnologias, o livro não tem perdido um pouco o seu espaço?
N.P.
- É provável que ele esteja, temporariamente, perdendo o seu espaço. Mas se a sociedade humana decidir que assim seja, eu vejo essa sangria como um avanço da barbárie. Eu não creio que a internet, a informática, o cinema, ou tudo que seja, possa substituir o refinamento do pensamento, ou a liberdade que o pensamento conquista quando está sozinho diante de um livro. O livro é, sem dúvida, o grande patamar da liberdade humana.

BN - Com sua intensa carreira internacional no mundo da literatura, participando de diversos seminários, palestras, congressos e ministrando cursos, de que forma, na sua opinião, a globalização tem influenciado a literatura?
N.P.
- Eu não vejo que a globalização tenha a ver com a criação literária; isto é, que tenha afetado profundamente a maneira de escrever, ou de conceber o mundo através da literatura. O que altera, a meu juízo, de uma forma muito positiva, é que amplia os horizontes da vida. Você olha o mundo de uma forma mais cosmopolita. E isso não vai prejudicar a visão que você tem do seu país, da sua língua, do seu povo. Quanto mais universal você seja, mais estará preparado para entender as idiossincrasias da sua própria condição de brasileiro. Uma presumível identidade não é afetada quando você atravessa o Atlântico. Eu acho que quanto mais você sabe, mais poderá desenvolver a sua compaixão, a sua visão de mundo, o seu entendimento humano, a sua compreensão da grande trajetória histórica. Portanto, o que se designa como globalização não afeta a pena, ou como você vai escrever uma frase, porque escrever é difícil, globalizado ou não. Mas, ao mesmo tempo, é uma oportunidade extraordinária de você entender como é a sua história pessoal, a história coletiva, como podemos ingressar no coração do próximo, como se traçam as grandes intrigas humanas. Porque a história do ser humano está na literatura. Se quisermos entender, por exemplo, o que foi Roma sob o império de Nero, que foi um homem de extraordinária crueldade, podemos ir ao Satyricon, um dos primeiros romances que a humanidade concebeu, escrito por Petrônio. É um livro que revela a história de uma humanidade e dos senhores do mundo naquele momento, quando começava o seu declínio. Que filme poderia revelar tão bem o Império Romano como um romance? Se você quer entender, perfeitamente, o que foi o Japão dos séculos XI e XII, pode ler, por exemplo, os grandes contos da Sra. Murasaki, que terá o retrato perfeito de uma época e de como pensavam homens e mulheres. Então, eu acho que o escritor é aquele que, além de fixar o painel dos sentimentos humanos, tem toda uma sociologia por trás do que ele conta. Portanto, eu não vejo como se deveria dispensar as grandes narrativas onde está a nossa história.

BN - Qual é, então, a seu ver, a verdadeira função do escritor?
N.P.
- Eu acho que o escritor deve devotar-se com paixão à literatura, quase de uma forma soberba, e devotar-se também ao saber, ao conhecimento, para que a obra dele não deixe aflorar apenas um saber limitado, ou um texto sem grande arrebatamento estético. Ele é alguém que julgo indispensável à sociedade e deve ser altamente ambicioso, no sentido de fazer uma grande obra literária, mesmo que fracasse. O fracasso, às vezes, é a sua coroa. De espinhos, mas uma coroa. Mais vale fracassar do que não ter se empenhado em fazer uma obra significativa para o seu país e para si mesmo, para suas ambições pessoais. Ele é um ser que fixa os valores, a elasticidade e a plasticidade da língua, que cada qual vai inventando na rua, nos bordéis. A língua tem uma origem espúria. Cada palavra que se adiciona à nossa língua, ela tremula: é uma palavra talvez suja no sentido imediato, mas depois ganha uma eloqüência, uma grandeza, que o uso popular consagra. É por isso que nós temos uma língua portuguesa tão suntuosa, opulenta, poderosa. Ela se presta a qualquer serviço lingüístico. Qualquer coisa que um escritor não conseguir dizer, a falha não é da língua; a falha é dele. Então, eu acho que esse conjunto de desafios extraordinários dá guarida ao escritor. Faz com ele se prepare para ser quem ele quer ser, ou como ele vai registrar a aventura humana ao longo de toda uma vida, quando jovem, maduro, na sua alta maturidade e até quando a vida o leve. Mas ele deixa atrás de si um patrimônio, que é a sua obra romanesca ou poética, ou o que seja, mesmo porque os grandes romances têm traçados nítidos de poesia.

BN - Mas, num país socialmente injusto e de baixa educação, como o nosso, de que forma deve ser esse empenho do escritor?
N.P.
- Eu vou usar um exemplo que me fascinou quando eu era muito jovem. Surgiu um debate, na França, entre dois grandes intelectuais: o Jean-Paul Sartre e o Claude Simon, que mais tarde ganhou o Prêmio Nobel. O Sartre dizia que, naquele momento, seria necessário que os jovens africanos, que estavam em Paris, defendessem a sua pátria, voltando para a sua terra e assumindo posturas políticas e ideológicas. Já o Claude Simon falava que estava certo não renunciar às posturas políticas e ideológicas, mas o escritor africano devia fazer a sua obra independente de países pobres e iletrados; porque se ele deixasse de “registrar a história de seu país, ainda que em meio à dor, quem o povo africano irá ler ao longo dos anos ou dos séculos? Acaso, o escritor francês? Acaso, o Sr. Sartre?” Então, é lastimável que o Brasil seja um país precário, injusto, e que a população brasileira esteja totalmente alijada das benesses culturais. Porque essa é que é a verdade: esse contingente está previamente condenado não só ao silêncio da leitura, mas ao silêncio da própria alma. O escritor brasileiro não deve deixar de defender essa carência dramática do Brasil, mas deve sempre realizar obras, porque são elas que vão integrar o patrimônio do país. Quando o Brasil for redimido e alcançarmos uma plenitude social justa, será preciso que se encontre uma literatura nossa. Portanto, temos que escrever. Não podemos renunciar à literatura, independente da condição que estamos vivendo, ou das dificuldades nas quais estamos imersos. Acaso o Brasil do século XIX, muito mais miserável que o Brasil de hoje, justificava a presença de Machado de Assis? Acaso, o Machado de Assis deveria ter rasgado sua obra, ou silenciado o seu gênio, só porque o entorno brasileiro era injusto e não poderia absorver o seu talento único, inenarrável? Machado de Assis fez a sua obra, a mais importante que o Brasil já conheceu, e se tornou, a meu juízo, o brasileiro mais ilustre de todos que o Brasil gerou.

BN - O escritor, portanto, deve realizar. Mas ele não deve, também, estar sempre atento ao seu tempo?
N.P.
- Eu acho que o escritor é um ser que interpreta o seu tempo, mas independente das agruras, ou da escória moral do seu tempo, ele tem o dever moral de escrever. Ele não pode silenciar-se, não pode rasgar a página em branco. O dever dele é pegar da pluma, como exemplo simbólico, e rabiscar a história da humanidade. Ele não pode integrar-se à barbárie. Porque a barbárie quer abafar o talento, o gênio, a civilização.

BN - Em poucas palavras, o que é o livro, na sua concepção?
N.P.
- O livro é o lar, é a cama, é o amor, é o espírito. O livro é a vida.

* Jornalista e Diretor da Tv Educativa / RJ

 
 
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