Por José Carlos de Vasconcelos
É uma escritora e mulher absolutamente singular, como os leitores verão nesta entrevista. E por isso Nélida Piñon tem sido a primeira em tanta coisa. Simpática e extrovertida, fala de tudo ou quase tudo com uma fluência apaixonada - e a palavra paixão é das que mais utiliza. Aparentando por vezes semi-cerrar os olhos pequenos, tem um discurso de que ressaltam tanto as sólidas referências culturais – de quem faz conferências um pouco por toda a parte, sobretudo na Europa e na América Latina, ensinou em universidades do Brasil e dos EUA -, como a poderosa imaginação e a criatividade verbal.
Carioca descendente de galegos, lutadora e «feminista», solteira e sem filhos, publicou o primeiro livro há 44 anos, e a partir daí construiu uma já vasta obra, sobretudo na área do romance, mas incluindo também contos, ensaios, crónicas, livros que reúnem textos diversos. Obra muitas vezes distinguida, traduzida e estudada em numerosos países, designadamente em Espanha, onde a escritora goza de grande prestígio e recebeu na sexta-feira, 21, em Oviedo, o Prémio Príncipe de Astúrias de Letras, e em Portugal, onde parte dessa obra está editada, sobretudo pelo Círculo de Leitores, que já deu a lume também o seu último romance, Vozes do Deserto, que em breve chegará às livrarias com a chancela da Temas & Debates.
Mas os leitores ficarão a saber muito mais sobre a autora de A República dos Sonhos, e a sua relação com a literatura e a vida, lendo esta entrevista, com a parte essencial de uma longa conversa do jornalista com a criadora que conheceu, aprendeu a admirar e de quem ficou amigo há já mais de 20 anos.
Jornal de Letras: Não devia, mas vou começar por uma pergunta não literária e talvez inconveniente. Em três Histórias da Literatura Brasileira vejo ‘acordo’ quanto ao seu dia de nascimento, 3 de Maio, e ‘desacordo’ quanto ao ano: 1934, 1935 e 1937! Como é?
Nélida Piñon: (risos) Vamos deixar essa ambiguidade em aberto. Eu nunca digo. Percebi que a idade, para a mulher, é de certo modo uma desvalorização. Vivo de acordo com o que sou e nunca fiz plástica, num país em que a plástica é quase uma obrigação social. Sinto que ajo de acordo com a minha própria biografia. Há uma coerência nisso.
Mesmo fisicamente, parece ter menos 15 anos - e do ponto de vista intelectual nem se fala?
Que beleza! Fico muito feliz. Dos maiores elogios que posso receber é dizerem que estou com uma certa jovialidade. Quanto ao espírito, sinto uma quase voracidade, sinto-me muito mais jovem. Embora eu pense que numa certa idade, antes da decrepitude final, se tem um poder de sumarizar a vida que não existe em mais jovem. Penso que os anos me foram tornando o saber muito mais acessível. E tudo hoje para mim é muito mais natural.
Se calhar a única coisa que lhe é mais difícil é escrever, não?
É. Escrevo com enorme fervor: se resolvo aceitar a existência de um texto, ele me sai aos borbotões. O problema é armá-lo, como dizer?, preparar os andaimes de um romance. Porque não o posso começar sem ter essa consciência construtiva, sem os procedimentos narrativos. Posso falhar na linguagem, porque terei muitas ocasiões para cortar, acrescentar, transformar, fazer a metamorfose que o romance cobra. Mas o edifício tenho que montá-lo antes.
Quando começa um romance já o tem, então, estruturado. E a acção?
Além daquelas acções que defino previamente, há outras que me surpreendem, que o próprio texto vai impondo. Não vou dizer que o personagem impõe a sua vontade ao escritor. Mas é como se lhe dissesse: «Eu não sou aquilo que está fazendo de mim». Nesse sentido, o personagem tem uma voz que chama a atenção da sua consciência estética. Ele diz: «Você se equivocou Nélida! Esse pedaço, esta acção, não me pertence».
Haverá uma inicial ‘montagem’ do edifício, mas depois...
O romance faz-se ao longo de dois, três anos, durante os quais não só ganha uma vida soberana como o autor também vai mudando muito. Há uma mútua transformação e um convívio dramático. O autor não pode desconsiderar o romanc,e que passa a ser um objecto concreto, embora. intangível, porque as palavras são intangíveis. É uma espécie de um terreno que as pessoas vão passando e se torna uma servidão pública? E o livro passa a ser de toda a gente, uma voz colectiva.
Dois a três anos é o que em média demora a escrever um romance?
Eu posso escrever a primeira versão em poucos meses. Mas para mim ela é absolutamente imperfeita. Está longe da minha ambição estética. Por exemplo, de A República dos Sonhos eu fiz sete ou oito versões, de 700 páginas cada uma.
Deixa a ‘repousar’ cada versão, e só depois volta a ela? Ou trabalha ininterruptamente?
Depende. Por exemplo A República dos Sonhos fui fazendo. Só que como o livro tinha um tempo narrativo muito complexo, que dançava o tempo todo, pensei que se o fosse ler imediatamente, após terminar a primeira versão, tenderia a agir não como romancista mas como um leitor comum, golpeando os procedimentos do romance. Então, só li o livro todo quando terminei a quarta versão. Antes, tinha tudo na memória.
Sete ou oito versões, sempre trabalhando a construção romanesca e a linguagem?
Eu trabalho muito a língua, a configuração da frase. Acho que as frases devem ter um rosto final. Mas esse esforço de refazer obedece a uma cautela muito grande, para não asfixiar a emoção do texto.
Mexo nas frases de uma forma muito cuidadosa para preservar a sua graça, emoção, às vezes até o melodramatismo, que tem uma função. Se depurar em excesso, fica um texto asséptico que contraria o que quer dizer.
Trabalho sobre a palavra, mas sem lhe tirar a alma.
Exactamente. O crítico, depois pode dizer o que quer, porque trabalha sobre um texto já existente. Eu estou, tranquila, a escrevê-lo. Quando termino, a sorte está lançada. Fiz o que podia e sabia. É um alívio. Lembro do meu primeiro editor de A República me perguntar como é que eu me sentia, por os meus livros seguintes poderem não alcançar a mesma ‘altitude’, se isso não me frustraria. E eu disse «não, pelo contrário, já estou livre da obrigação de fazer um romance que mereça essas palavras, agora vamos para outro»! Nesse sentido, sou uma mulher muito do quotidiano, muito juvenil, não tenho medo de assumir riscos estéticos.
Tem, com as palavras, nomeadamente no ritmo, cuidados de poeta. É isso?
Sim. Trato a palavra atribuindo-lhe uma visão e um significado poéticos. Mesmo quando as frase têm funções triviais, são musicais e obedecem a uma estratégia narrativa. Escuto sempre música, enquanto trabalho.
Que tipo de música, em geral?
Depende do efeito que quero obter. Uma música pode restaurar o meu espírito, reabilitar a minha energia. Alguns improvisos de Schubert fazem crescer o meu enamoramento narrativo. Certa peças musicais, como «Morte e Transfiguração», de Tristão e Isolda (Wagner), têm muito a ver com cenas eróticas minhas. Desde os 12 anos, quando ganhei do meu pai uma Hermes, que escrevo ouvindo música.
Hermes, máquina de escrever?
Sim, foi a minha primeira maquininha. A certa altura já nem sabia escrever à mão. Só já com muita idade e experiência narrativa, depois de A doce canção de Caetana (1987), é que aprendi a criar à mão.
Como foi isso?
Não cheguei ao computador e comecei a entusiasmar-me pelo manuscrito. A caneta se tornou para mim uma paixão.
Caneta?
Caneta comum, só gosto de caneta baratinha. Nada chique. Porque como recusei o computador, achando que era dificílimo e que ia interferir no meu texto, ganhei horror à máquina de escrever. E fiquei no limbo.
Mas depois chegou mesmo ao computador.
Só em 1999. Aí me apaixonei. Nesse interregno vivi escrevendo à mão, o que continuo a fazer com muita facilidade. Passava para o meu secretário que dactilografava tudo e me devolvia. Eu trabalhava os textos, limpava, limpava, limpava, mandava para ele, que me devolvia impresso – e por aí fora...
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