Nélida Piñon
 
 
 
 
 
 
início panorama entrevistas   regresar imprimir

entrevistas





Nélida Piñon consagra boa fase com obras relançadas
Folha de São Paulo Ilustrada. – 26 de setembro 1998

 

PENSY PIMENTEL
da Redação

Os últimos anos foram generosos com a escritora Nélida Piñon, 61. Em 95 foi o prêmio Juan Rulfo de literatura latino-americana -nunca antes vencido por um brasileiro, ou uma mulher.
Em 96, eleita presidente da Academia Brasileira de Letras, essa carioca, descendente de galegos, fez história de novo: em nenhum país do mundo uma mulher ocupara semelhante cargo antes.
Agora, para coroar a boa fase na carreira da escritora, a Record lança edições revistas de dez de seus 13 livros (alguns dos quais esgotados havia anos): de "Tempo da Frutas", de 1968, até "O Pão de Cada Dia", de 1994 -só três ficaram de fora (veja quadro).
Atualmente Nélida reside no Rio, mas não abandona sua vasta agenda internacional (entre outras coisas, ela dá aulas na Universidade de Miami). A escritora concedeu entrevista à Folha por telefone. Leia a seguir trechos da conversa.

Folha - A sra. publicou cedo seu primeiro livro (com 24 anos)...
Nélida Piñon - Porque eu comecei a escrever muito cedo. E tive sorte de algum modo -embora pelo fato de ter tido coragem de escrever aquele livro ("Guia Mapa de Gabriel Arcanjo") e ter sido logo publicada, trouxe uma proposta estética que não estava vigindo naquela hora, então nasceu esse livro com uma marca de singularidade.

Folha - Como é o seu tão comentado trabalho com a linguagem?
Nélida - O texto respira através da maneira como a história é contada. O que talvez me caracterize é a consciência de que atrás daquele texto na primeira instância há um texto mais profundo, mais real.
Eu estou em busca do rosto da frase. A tendência nossa é aceitar o primeiro rosto, com maquiagem. Mas, quando você desconfia de que esse rosto não é o verdadeiro, porque há muitas almas, trevas, lobos dentro desse personagem, dessa história, dessa língua, aí você vai em busca, até que, de repente, tem uma iluminação e diz: essa linguagem é aquela que está dizendo o que eu preciso revelar.
Você só tem que tomar cuidado para não se perder na arrogância. Senão acaba fazendo um texto "brilhante", mas sem impurezas, sem a escatologia do texto.
Eu cada vez mais tenho uma tendência a uma claridade insuportável, mas sem renunciar às várias camadas arqueológicas que tem a língua. Se você só diz aquilo que está sendo dito na frase, é muito pouco. A história é arquétipa, é uma rede. Ela é lançada e, ainda que você esteja em busca de um único peixe, ali vêm todos.

Folha - A sra. já disse que um prêmio que a literatura lhe deu foram as metáforas que lhe permitiram entender a si mesma...
Nélida - Eu não estou me buscando dentro do texto. Estou cumprindo uma busca, desde que nasci. Sou uma inconformada, uma insubordinada, então tenho que buscar razões de viver, explicar esse universo onde estou inserida, através de uma coisa que se auto-intitula arte e está contaminada pela ilusão. Entre a realidade visível e a ilusão há um abismo, que eu tenho que preencher: eu estabeleço analogias impossíveis.
Olho o mundo de forma camaleônica: sei que não sou o que vejo à frente. Também sou o que está por trás, uma mirada de 360º. E há a certeza de que você é cronológico, é puro tempo, é tudo aquilo que já existiu até este momento. É uma criatura arqueológica. Eu sou filha de todos os tempos. Eu quero ser filha da imaginação, dos absurdos das minhas metáforas (risos).

Folha - A sra. fala em insubordinação. Qual é sua insubordinação com a realidade de hoje?
Nélida - A grande insubordinação do escritor é enfrentar o mercado e sua demanda, em vez de sucumbir a ele. Eu não quero que o mercado seja sócio da minha arte. Agora, não sou uma utópica enlouquecida, não. Eu quero ser lida pelo meu país, pelos meus companheiros. Mas não estou disposta a pagar o preço da alienação da minha alma. Para mim a estética se mistura com a ética do escritor.

Folha - Localmente: contra o que a sra. se insubordina no País? A sra. tem esperança no Brasil?
Nélida - Eu tenho sim. Sabe por quê? Eu não sou mulher só de 1998, sou mulher de mil anos. Portanto, eu não posso ter impaciência. O Brasil é um país de rara complexidade. Se de um lado tem extraordinários atrasos históricos, também tem movimentos vitais restauradores de consciência, de criação de linguagem, de busca de ofícios para sobreviver (porque aquilo que aparentemente é pura sobrevivência, revela inventos, habilidades), está terminando uma afasia histórica longa (as pessoas estavam emudecidas).
O povo está dando autoridade ao verbo. São progressos lentos. O bom é que a gente está insatisfeito, a insatisfação é progressista, ajuda a vencer inibições, dificuldades.

Folha - A sra. tem boas relações no exterior. Como é vista a literatura brasileira nos lugares por onde passa, Europa, EUA etc.?
Nélida - Eu detecto uma mudança. Não é esplêndida, mas é inédita e sintomática. Eu testemunhei um dramático silêncio. Agora não, há uma presença brasileira, já se formam expectativas literárias. Começa a haver um consenso de que esse país produziu e produz grandes talentos literários. É uma coisa que nós temos que acelerar.

Folha - A sra. se considera uma embaixadora do Brasil?
Nélida - Eu não me considero nada, eu sou alguém que eu pego minha mala e vou embora.

Folha - O que há de comum entre as literaturas ibero-americanas?
Nélida - A capacidade de descerrar a cortina da imaginação (justamente o título de um curso que darei agora nos EUA).

Folha - A sra. louva as qualidades de nossa língua. O que a fascina no português?
Nélida - A capacidade de dizer tudo de que o homem necessita. Nós, seres brasileiros e portugueses, temos que fazer uma corrida de 400 metros para alcançar o prestígio da língua, que é superior a nós. Eu acho nossa língua linda, elegante, bonita, poderosa. Você é capaz de usar os adjetivos com dignidade...

Folha - Seu último romance é de 87. Vem algum novo por aí?
Nélida - Estou preparando um livro de ensaios, outro de crônicas, outro de confidências estéticas, é muita coisa. No momento estou visitando minha alma, para poder escrever sem aproveitar restos. A cada livro você tem que limpar o armário, desfazer-se do entulho, para ter coragem de recomeçar. Estou me decantando para o meu romance.

Folha - Há uma diferença notável entre o estilo de seus romances e o dos contos...
Nélida - É da natureza. O romance é um desafio histórico, social, antropológico. O conto é um instantâneo brilhante, mas que não pode ser longo, porque, se começa a se desfazer a trança para ficar com milhões de fios de cabelo, deixa de ser conto.

Folha - Um dos contextos em que sua obra é analisada é como "literatura feminina"...
Nélida - Nunca. Não é verdade: é literatura feita por mulher. Não gosto que se diga literatura feminina porque não existe literatura masculina.

Folha - Mas o que há de feminino em sua obra?
Nélida - Não é feminino, é o que tem de ponto de vista da mulher. A mulher sempre esteve presente nos momentos mais dramáticos da vida. É aquela que pare, acompanha o ser em formação, é acompanhante da morte. Mas hoje ela tem essa memória do passado, que está na sua psique, no seu corpo pessoal. Ela tem condições de transitar pelo mundo dos sentimentos com grande rareza. E talvez ela tenha condições de ser uma narradora sem pudor, o que é muito importante. Ela poderá costurar aquilo que se pensa ser abissal entre o racional e o ilógico, circular pela fantasia e pelo real.

Folha - O prêmio Juan Rulfo, o que significou para a sra.?
Nélida - O importante desse prêmio é que ele é para um conjunto de obras, é o reconhecimento de uma vida. Consolidou minha circulação pelo mundo internacional e foi muito significativo para mim. Mas o bom é que já estou adiante: sei que ele existiu, foi maravilhoso, e agora estou enfrentando a página em branco.

Folha - E os 17 meses à frente da ABL?
Nélida - Foi uma experiência rica, um desafio enorme. Eu fui além do que tinha prometido. Saí com dignidade, aprendi muito sobre a língua portuguesa.

Livros: reedição de dez obras de Nélida Piñon
Lançamento: Record


 
 
início panorama entrevistas   subir regresar imprimir
 
 
www.nelidapinon.com.br
 
 

© Piñon Produçoes, 2006