Autora fala em entrevista sobre literatura e a coletânea recém-lançada "O Presumível Coração da América"
Por SYLVIA COLOMBO
Fazer discurso nunca foi a ocupação principal da escritora Nélida Piñon, 65. Romancista e integrante da Academia Brasileira de Letras, da qual já foi presidente, a autora incomodava-se com o caráter efêmero que costumavam ter os textos elaborados para ocasiões solenes, como entregas de prêmios literários ou homenagens a celebridades mortas.
Decidiu que os seus seriam diferentes. Passou a elaborá-los como quem estivesse escrevendo ensaios. Neles, fez retratos da literatura e da atividade intelectual no continente. O resultado está em "O Presumível Coração da América", coletânea lançada agora.
Em entrevista à Folha, a autora de "A República dos Sonhos" falou sobre literatura latino-americana, um dos principais temas dos textos reunidos.
Folha - Qual é a atualidade de alguns espaços míticos fundadores do imaginário literário latino-americano, como a Comala, de Juan Rulfo ("Pedro Páramo") ou a Macondo de Gabriel García Márquez ("Cem Anos de Solidão")?
Nélida Piñon - A idéia de espaços míticos é algo muito típico da América. Resulta de uma inspiração, de um exercício de liberdade extraordinários. Nossos construtores de mitos prescindem da cidade grande. Não que tenham sido forjadores de espaços rurais, mas de espaços míticos. Aglutinaram obsessões, características, crueldades, cobiças, e tudo aquilo que de algum modo ajuda a caracterizar quem nós somos, em pequenas cidades e na caracterização de personagens, cada um funcionando como um protótipo.
Folha - Mas há a vontade de explicar o mundo rural também, como nos venezuelanos "Doña Bárbara" (Romulo Gallegos) ou "Las Lanzas Coloradas" (Arturo Uslar Pietri).
Piñon - Sim, mas mesmo nesse contexto, eles o fizeram de forma mítica. Em "Doña Barbara", Gallegos consolida uma linguagem a partir de um vocabulário extraordinário que teria se perdido se não fosse seu livro. Já em Comala, pode-se perceber a presença de Virgílio, uma influência que mostra que, ao contrário do que as pessoas pensavam, Juan Rulfo era um homem de formação clássica e muito influenciado pela literatura escandinava, que é uma literatura das névoas, do mistério.
Folha - A sra. não crê que a relação entre os escritores latino-americanos e a política era mais intensa na época das ditaduras do que hoje? Não acha que os autores estejam se distanciando da política?
Piñon - A literatura não é uma reportagem e precisa de distância para analisar. Não acredito que tenha havido tempo suficiente para que surja, por exemplo, um romance importante na Argentina que se debruce sobre sua crise desesperadora. Mas há, ao longo da história, relatos que permitem analisar essas sociedades. Essa análise não tem que ser incandescente. Muitas vezes, bastam alusões. Nesse sentido, a AL forneceu grandes autores, levando-se em conta o tempo limitado de sua existência normativa e embora a pisquê dos nossos países esteja tomada pela dor dos vencidos.
Nos nossos mais importantes romances, percebe-se um protagonismo invisível. É como se o autor estivesse, além da história que conta, falando com um interlocutor fora da obra e que não é latino-americano. Há na nossa novelesca uma ânsia dramática de auto-esclarecimento.
Folha - Há rumores de que ex-presidente Fernando Henrique Cardoso poderia se candidatar a uma vaga da Academia Brasileira de Letras. Como vê isso?
Piñon - Ele tem tudo para se candidatar. No momento não acontecerá, porque é muito recente, não seria de bom gosto, ele deve entender as normas das instituições melhor do que todos nós. Mas acredito que a ABL é uma casa adequada para ele.
O PRESUMÍVEL CORAÇÃO DA AMÉRICA - De: Nélida Piñon. Editora: Topbooks. Preço: R$ 27 (226 págs.)
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