Nélida Piñon
 
 
 
 
 
 
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Nélida Piñon: “A memória e a invenção têm uma fonte comum”
Revista Continente Multicultural Nº58 – Outubro de 2005

 

Em seus contos e romances, a escritora integra as tradições e raízes culturais do continente latino-americano, numa prosa que recorre a diversos estilos para combinar realidade, fantasia e memória

Por Luciano Trigo

Falando ou escrevendo, Nélida Piñon demonstra o mesmo cuidado com as palavras. Seu próprio nome é um anagrama do nome do pai, Daniel, um comerciante originário da Galícia. Para Nélida, a palavra é o instrumento que mais diretamente põe o homem a nu, em contato consigo mesmo, com seus problemas individuais, com suas dramáticas contradições enquanto ser social e político, cultural e economicamente determinado. Daí a sua consciência da função do escritor, que não deve se limitar apenas a criar, sua tarefa máxima, mas também deve emprestar sua consciência à consciência dos seus leitores, sobretudo num país como o Brasil, onde é preciso fazer com que o povo reflita sobre a sua existência e reivindique uma realidade melhor e mais justa.

Carioca de Vila Isabel, a escritora se formou em jornalismo pela PUC-RJ e ampliou seus estudos na Universidade de Colúmbia. Como jornalista, trabalhou nas revistas Cadernos Brasileiros e Tempo Brasileiro. Foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, onde ocupa, desde 1989, a cadeira de número 30. Doutora honoris causa em universidades da França, do Canadá e da Espanha, Nélida vem colecionando as maiores honrarias que um escritor pode almejar. Em 1995, foi a vencedora do Prêmio Internacional de Literatura Juan Rulfo, concedido então pela primeira vez a uma mulher e a um autor de língua portuguesa Em 2003, recebeu o Prêmio Internacional Menéndez Pelayo; e, em junho de 2005, foi a vez do cobiçado Prêmio Príncipe de Astúrias. Agora, acaba de ganhar o Jabuti, o mais prestigiado prêmio literário brasileiro.

Além disso, já foi apontada pela New York Review of Books a melhor escritora brasileira, além de ter sido capa da revista acadêmica americana World Literature Today, o que costuma ser um degrau para o Nobel de Literatura.
Em seus contos e romances, Nélida integra as diversas tradições e raízes culturais do continente latino-americano, numa prosa que recorre a diversos estilos para combinar realidade, fantasia e memória. Ela também ficou conhecida como uma firme defensora dos direitos humanos, especialmente os da mulher, e exerceu funções em diversas entidades culturais do Rio de Janeiro.
É uma viajante contumaz, freqüentadora assídua de congressos, seminários e encontros internacionais, proferindo conferências sobre temas ligados à cultura, à literatura e à criação literária.

Deu cursos na City University of New York, na Columbia University, na Johns Hopkins University em Baltimore, na Universidade Católica de Lima, na Sorbonne, na Universidade Complutense de Madri, e em outras universidade internacionais. As viagens para outros países foram fundamentais para sua biografia e sua obra e para melhor mostrar-lhe o Brasil, país que é para ela a preocupação maior, a razão da sua inquietação intelectual.

A estréia literária de Nélida foi com o romance Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961, que trata do tema do pecado, do perdão e da relação dos mortais com Deus, por meio do diálogo entre a protagonista e seu anjo da guarda. Desde então a escritora vem introduzindo em sua ficção uma preocupação com a renovação formal da linguagem literária. No romance Fundador, de 1969, Nélida abandona a base realista para misturar personagens históricos e ficcionais, criando um mundo eminentemente estético.
Em 1972, publica A casa da paixão, romance em que irrompe o tema do desejo e da iniciação sexual. Publica a seguir livros de contos e mais dois romances, até lançar o ambicioso romance autobiográfico A república dos sonhos, em 1984, que narra a saga de uma família da Galícia que emigra para o Brasil. Em A doce canção de Caetana, romance de denúncia política publicado em 1987, a autora faz uma incursão ao universo de uma cidade do interior, Trindade, na época do milagre brasileiro, no começo dos anos 70. Já no livro O pão de cada dia, de 1994, Nélida Piñon deixa de lado a moderna ficção na qual se consagrou para empreender uma reflexão profunda sobre as inquietações do homem, através de fragmentos.

Em mais de 40 anos de atividade literária ininterrupta, Nélida publicou ainda Madeira feita cruz (romance, 1963), Tempo das frutas (contos, 1966); Sala de armas (contos, 1973); Tebas do meu coração (romance, 1974); A força do destino (romance, 1977); O calor das coisas (contos, 1989) e A roda do vento, romance infanto-juvenil (1996). No momento ela está concluindo O ritual da arte, ensaio sobre a criação literária.

Recentemente, a senhora foi capa da revista World Literature Today, o que só acontece com escritores mundialmente consagrados, e recebeu os Prêmios Juan Rulfo e Príncipe de Astúrias. Qual a importância desse crescente reconhecimento internacional de sua obra?
A trajetória individual do escritor é paulatina, sobretudo para quem vive no Brasil e escreve na amada língua lusa. Não fugi a uma lenta e penosa ascensão que deixou seqüelas em minha alma. São muitos anos de carreira, de irrestrita devoção à literatura. Quanto aos fatos mencionados, eles me comovem. Sinto-me honrada por representar meu país nos cenários internacionais.

O júri do prêmio Príncipe de Astúrias destacou que, em sua obra, confluem diversas tradições literárias, que configuram uma “singular teoria da mestiçagem”. A senhora concorda? Como esta mestiçagem se manifesta?
A mestiçagem a que me refiro excede à estreiteza étnica, que pouco importa frente ao legado civilizatório, de que somos irrenunciáveis herdeiros. A cultura coletiva é frutífera e poderosa, quando se deixa infiltrar pelas instâncias representativas da condição humana. Penso que viemos de longe. Nossas irradiações são aparentemente latinas e ibéricas. Elas integram o nosso ser e o mistério que o cerca. Mas, de fato, somos múltiplos, dispersos, mestiços. Fomos visigodos, iberos, celtas, gregos, romanos, árabes, africanos, antes de sermos qualquer coisa, antes de sermos ibero-americanos. E como originários deste universo abrasivo, desta fermentação fáustica, a nossa carnalidade é o berço de bárbaros e civilizados. Assim, a frase que ora pronuncio traz em seu bojo ingredientes cuja etimologia cultural não traduzo, pois pertence à esfera de um impenetrável enigma poético. Homero só chega a nós, se aceitarmos o seu advento narrativo, se acatarmos seus mitos, seus aedos, o espírito da aventura que a sua Odisséia implantou no espírito humano.

Realidade e memória de um lado, fantasia e sonhos do outro. Seriam estes os ingredientes de sua obra? De que maneira a senhora os equilibra?
Não há situações estanques na arte. O filtro é impuro e complexo. Ao nascer o texto do caos humano, ele traz em seu bojo imposições estéticas que engendram equívocos ou acertos. A memória e a invenção têm uma fonte comum, são indissolúveis. O equilíbrio provém do saber narrativo, de um manancial que propicia o advento da obra de arte. Não há, pois, discrepâncias entre as noções que guardamos da realidade.

De que forma a tradição da cultura da Galícia influencia sua obra, temática e estilisticamente?
Eu sou mulher de dupla cultura. Digo com isto que tive o privilégio de crescer sob o feitiço do Brasil e da minúscula Galícia, terra da minha família. Para esta Galícia fui levada menina, quando aprendi suas lendas, sua língua. Assimilei sua poderosa oralidade, pois ali é o território onde as histórias, uma vez iniciadas, não merecem parágrafo. Além do mais, estudei em colégio alemão, sofri a influência de várias culturas que amo e sem as quais não teria o imaginário que sustenta minha visão de mundo. Sou herdeira de tudo que penso e imagino. Quanto mais me infiltro de matéria espúria, melhor me apresento diante da página em branco.

Fale sobre sua participação na luta contra o regime militar no Brasil e sua defesa tenaz dos direitos humanos em geral, e da mulher, em particular.
Fiz o que pude. Fui reforçando minha consciência à medida que enfrentava uma realidade adversa, cobrando nossa desistência social. Penso que é inevitável lançar-se às campanhas humanas que preservam a justiça, os direitos humanos. O silêncio está em desacordo com a visão que tenho do escritor . E, como mulher, jamais deixei de defender os direitos deste ser tão ofendido historicamente. É um assunto profundamente caro ao meu coração. Não sou nada sem o apetite incomensurável pela compaixão, que é o estado puro do amor .

A senhora passou sua infância em Vila Isabel, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Em que medida a cultura popular carioca a influenciou?
Vila Isabel foi minha casa espiritual por muito tempo. Mesmo quando nos mudamos para Copacabana, íamos à casa dos avós visitar as raízes familiares. A cultura popular me enriqueceu. Poucos sabem que fui freqüentadora da Rádio Nacional, do programa do César de Alencar, do Trem da Alegria, e, sob o nome de Tereza, instada pela própria, que era meia-irmã de meu pai, telefonava para a cantora Marlene. Com que interesse via as irmãs Batista passarem, moradoras da rua Dona Mariana, em Botafogo, quase vizinhas de Alceu Amoroso Lima...Via também o filho do cantor Francisco Alves... E quantos delírios mais não pratiquei em nome da vida que me impulsionava a tocar os seus limites?

A senhora foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. Que balanço faz de sua gestão? A senhora acha que a ABL deve se popularizar, acolhendo autores de sucesso como Paulo Coelho? E Jô Soares?
A presidência da ABL, no ano do seu primeiro centenário, foi um desafio e uma prova de amor pela instituição. Servi à casa com exemplar devoção, seguindo as regras que imponho à minha vida de escritora e de mulher. A instituição ocupa um espaço privilegiado no imaginário brasileiro e deve acolher aqueles autores, aqueles notáveis que, de verdade, correspondem à elevada expectativa de uma nação.

Fale sobre o contexto da cultura brasileira em 1961, ano em que a senhora publicou seu primeiro livro, Guia Mapa de Gabriel Arcanjo.
A meu juízo, era um contexto pobre, limitado, desestimulante. O país parecia alijado dos grandes centros civilizatórios. No entanto, em meio a esta inocência e incredulidade culturais, havia uma fascinante matriz que protegia nossas discretas utopias. A realidade, sem dúvida mais modesta que hoje, não expulsava os artifícios maravilhosos da arte. Eu jamais senti que aquele marasmo e a ditadura militar posterior tivessem roubado minha capacidade de pensar, de ler, de suprir-me com informações, de compensar as carências culturais com intenso esforço intelectual. Éramos mais coerentes com a nossa pobreza do que somos hoje, com a nossa falsa noção de progresso

Quais são os seus livros mais confessionais? Existe literatura que não seja confessional? Existe memória que não seja também invenção?
Todo romance arrasta consigo alguns lampejos confessionais. A literatura se faz a partir de um corpo que leva nome, biografia, tradições literárias. Penso que O pão de cada dia, que é uma espécie de diário do pensamento, tem esta característica.

Vamos falar um pouco sobre a situação do escritor. As editoras funcionam cada vez mais segundo razões de mercado. Isso coloca em risco a emergência de novos talentos? Como a senhora avalia o estado atual da literatura brasileira? Existe renovação?
O mercado, como um todo, amplia o seu controle estético, com isto desonerando o escritor do risco criativo. Se o sistema literário se contamina, o escritor pode sofrer o agravante de, como um novo Fausto, entregar sua alma ao mercado. Torna-se mais difícil, para ele, oferecer a reação que deve estar presente naqueles com real vocação pela literatura. Convém enfatizar que, em qualquer época, nunca foi fácil devotar-se à literatura. Se o mercado atual nos alicia com facilidades pecuniárias, o do passado nos desestimulava pela falta de perspectivas. Conclusão: o verdadeiro criador entrega-se mesmo é à paixão da literatura, que é incorruptível.
(Leia mais na edição 58 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas.)

Luciano Trigo é jornalista, escritor e autor de “Engenho e Memória” e “Todas as Histórias de Amor” Terminam Mal, entre outros.


 
 
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© Piñon Produçoes, 2006