Finalmente um novo livro de Nélida Piñon! Um belíssimo romance a que esta autora brasileira chamou Vozes do Deserto e que, simbolicamente, pode ser visto como uma homenagem à literatura e sua sedução, através da visitação-redescoberta das ficcionistas-contadoras de histórias. Inventiva recriação da essência de As Mil e Uma Noites, onde uma inteligente e criativa Xerazade com o poder da arte narrativa se vai libertando das interdições impostas ao destino feminino que ela quer transformar, desse modo salvando a vida das jovens de Bagdad, que o Califa condenara ao extermínio. Soberano cujo peito cheio de ressentimento e vingança em relação às mulheres se despira do amor e da entrega, da compaixão e da ternura. Afinal, ele nem sequer «sabe o que sente. Nutre a desesperança sem remorsos».
Só que Xerazade, «dona das palavras que pronuncia», consciente de ele não possuir o supremo poder de «decretar por meio da sua morte o extermínio da sua imaginação», decide desafiá-lo, propondo-lhe ganhar o direito à vida em troco de um imaginário exaltante e em si mesmo emaranhado, enovelante e voluptuoso, com o qual ela inventa madrugada após madrugada paixões e aventuras, mundos fantásticos e entrançados universos femininos; em todos eles colocando uma dobada sensualidade de rubi ardente e de almíscar, que jamais desejará o amor místico. Nem a mediocridade, nem o orgulho ferido, nem a submissão ou a pequenez de espírito. Erotismo secreto e revolvido, que Nélida Piñon literariamente trabalha com exultação linguística, ajustando-o, acrescentando-o inteligentemente ao discurso sexual, às palavras do corpo das suas personagens. Corpo que neste texto une o medo ao regozijo, a ferida do cutelo aos dedos que afagam.
É deste modo envolvente e fugaz, passando de um capítulo para outro, de um novo herói sensível para uma nova heroína audaz, que Nélida vai emprestando «vida às histórias que narra», construindo--as com ansiedade voraz, cuidando jamais interromper «a corrente de encantamento», de mistério poético, que prende o Califa à ficção encantada, com a qual Xerazade veste o próprio quotidiano de risco. Pois é o risco que a exalta, é com o risco que alimenta o poder criativo, que a leva até às «grutas em que o cristal reverberava», como parte da gloriosa mentira que é a escrita. Viajante sobrevoando as areias do deserto na companhia de Dinazarda, sua irmã mais nova, e de Jasmine, a sua escrava cor de canela, arrastadas por uma brisa salina que as faz percorrer o mundo em cima de um cintilante tapete voador, até aos lugares onde ele as vá levando. «Afinal, onde mais lhe faltava ir sem a sensação de já haver ali estado anteriormente?»
Tapete mágico que Nélida Piñon transfigurou em Vozes do Deserto, interagindo com o texto antigo, inicial, mil e uma vezes contado e lido, sem repetir nada mas usando e transformando tudo. A contrapor a mesquinhez totalitária do poder sexista à audácia feminina, dizendo-nos como a inventiva pode levar as mulheres até ao âmago da auto-estima que as transfigura, a oporem-se à prepotência dos califas deste mundo. Com a mesma exigência que teve Xerazade, que sob o domínio do Califa conseguiu ser livre através «das artimanhas da narrativa», da malícia literária, com as quais tanto ela como a romancista brasileira desobedecem, transgredindo; desse modo evadindo-se, voando. E nesse gesto alado, juntam-se às «vozes do deserto» de que fala o título deste livro feito com a «brasa das palavras» matéria do arrojo, da ilusão, do sonho, de que é feita a literatura.
Creio ser importante ler-se As Mil e Uma Noites para se poder ter inteira consciência do inteligente e inventivo trabalho literário feito por Nélida Piñon no seu romance As Vozes do Deserto, título que metaforicamente significa as vozes das mulheres no deserto em que têm vivido, também na literatura, que durante séculos lhes foi interdita. É fascinante percorrer-se ambos os textos em busca dos pormenores, diferenças, universos mágicos, da condução e do conteúdo das histórias. Atentos particularmente à construção das personagens, sobretudo no que diz respeito a Xerazade. Enriquecendo e acrescentando a leitura de um e do outro livro.
Nascida no Rio de Janeiro em 1935, Nélida Piñon formou-se em Jornalismo, tendo colaborado em jornais e revistas literárias antes de publicar em 1961 o seu primeiro romance, Guia- -Mapa de Gabriel Araújo. Em 1990 entra para a Academia Brasileira de Letras, da qual se torna, seis anos depois, a primeira presidente mulher. Obras editadas em Portugal A Doce Canção de Caetana, O Calor das Coisas e Outros Contos e Vozes do Deserto (Círculo de Leitores). A República dos Sonhos (Presença).
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