Como no clássico árabe “Mil e uma noites”, também o premiado romance de Nélida Piñon, “Vozes do deserto” (editora Record) – que acaba de receber o prêmio Jabuti 2005 – trata das difíceis e, muitas vezes, sangrentas relações entre a imaginação e a tirania. Que limites devemos impor às fantasias? Elas devem combinar com o real, a ele se submeter, ou simplesmente descartá-lo? Qual o lugar ocupado pelo poeta na cada dia mais turbulenta república dos homens? É um embate antigo, que vem de tempos remotos, e se perpetua sem perspectiva de desfecho. Ele faz parte, enfim, da própria condição humana, e é travado não só no campo da história, mas também na vida íntima de cada um de nós.
Uma das vozes que se levantou com mais vigor contra a opressão política durante o regime militar, Nélida Piñon é uma especialista no tema da resistência. “Vozes do deserto” é, de certo modo, uma recriação livre das “Mil e uma noites”, a longa história de Scherezade e as intermináveis histórias que ela desfia para acalmar seu Califa, na esperança de conter, ou pelo menos adiar, uma condenação à morte. A narração contra a opressão: é uma luta velha, que nunca se esgota. E são os temas arcaicos, as fixações mais antigas, que interessam a Nélida.
A literatura de Nélida, toda ela, conserva esse caráter de permanência e de resistência. Resistência da força da língua e de sua potência expressiva, em um mundo cada vez mais apressado, mais seduzido pela linguagem sintética e pelos clichês. Luta em defesa de uma literatura densa e culta – para escrever “Vozes do deserto”, Nélida pesquisou por cinco anos a cultura e a literatura árabes – em um universo no qual predominam as narrativas de desafogo, as confissões egocêntricas e as aventuras de fôlego curto.
Seus críticos, algumas vezes, se incomodam com a proximidade de seus relatos com a retórica; mas essa restrição se desfaz, se pensarmos no tom expressivo, na linguagem próxima das lendas e dos contos imaginários, com que Nélida narra seus romances. Com essa estratégia, ela transforma a literatura numa espécie delicada de arqueologia, já que, em um mundo fluido e que nos escapa por entre os dedos, só as ficções, muitas vezes, podem desencavar e reter aquilo que se perdeu.
Desde “Fundador”, romance publicado em 1969, Nélida abandonou suas primeiras experiências realistas para praticar uma literatura gerida pela imaginação e na qual a ficção ombreia com a memória e com a história. Essa experiência amadurece em livros como “Tebas do meu coração”, de 1974, e, em particular, em “A doce canção de Caetana”, de 1987, narrativa na qual a história se confunde com a denúncia política.
Os preconceitos contra a literatura de Nélida, que começam por certo na repulsa difusa, mas persistente, à escrita feminina, se explicam também por algumas de suas ousadias, como a de vasculhar a História sem se converter em historiadora, e a de tornear a língua, muitas vezes com o preciosismo e a sedução dos barrocos, sem a chancela dos filólogos e lingüistas; ou simplesmente a de escrever longos romances, repletos de desvios e de bifurcações, em uma época em que também os escritores andam apressados, e cultivam a ilusão de sincronizar com a volatilidade de seu tempo.
Nélida é, provavelmente, a escritora brasileira mais premiada no exterior – como atestam os prêmios Juan Rulfo, recebido em 1995, e Príncipe de Astúrias das Letras, em 2005. Está traduzida em mais de 20 países, e em 10 línguas. Desde 1990, é também professora catedrática da Universidade de Miami. A carreira internacional parece ter como efeito perverso uma certa desconfiança no meio literário brasileiro. Custamos, de fato, a penetrar em um romance de Nélida – assim como não é fácil sincronizar com as longas e tortuosas narrativas de um José Saramago. A preguiça, na maior parte das vezes, vence; mas isso não é um problema da literatura, e, sim, do mundo de hoje.
Nélida – como Saramago – faz uma literatura “antiga”, que ainda acredita na persistência da narração, em seu peso doloroso e em sua presença perturbadora; que a vê como uma floresta que deve ser atravessada passo a passo, com prudência e firmeza, ou seremos devorados na primeira curva. Não é fácil ler Nélida Piñon, talvez não seja mesmo cômodo, e pode ser até que a leitura nos desperte mais desconforto que prazer. Mas nada disso rouba a força com que ela se atira, de corpo inteiro, no mar das palavras.
(Leia mais na edição 58 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas.)
José Castello é jornalista e escritor, autor de Inventário das Sombras (Record) e O Poeta da Paixão (Companhia das Letras).
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