Nélida Piñon
 
 
 
 
 
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O ano de ouro de Nélida Piñon
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1800
Quarta-feira - 4/1/2006



Por Celso Augusto Uequed Pitol

2005 foi um ano de ouro para a língua espanhola. O mundo inteiro comemorou com grande pompa os quatrocentos anos do Dom Quixote, o que foi, na prática, uma espécie de decreto não-oficial de um “Ano da Espanha” em todo o Ocidente, com direito a festas nas embaixadas, discursos inflamados do primeiro-ministro Zapatero – que viu traços socialistas no ultra-individualista cavaleiro da Triste Figura – e matérias especiais em todos os grandes periódicos sobre a língua, a cultura, as artes e a literatura do país de Cervantes. O Oscar de melhor filme estrangeiro foi, novamente, para a Espanha, com a vitória de Mar Adentro, e o cinema da América Espanhola segue a conquistar espaço, incluindo aí Diários de Motocicleta, que, apesar do dedo do nosso Walter Salles, é para todos os efeitos um filme hispano-americano. E o futuro promete: o peruano Mario Vargas Llosa está a um passo de ganhar o Nobel, cada vez mais músicos de língua espanhola ganham mercado na Europa e nos EUA e até o presidente Bush fala um legítimo espanhol texano com os vizinhos do Sul.

Com tantos afagos vindos de fora, seria natural que os espanhóis fizessem o mesmo dentro de casa, isto é, dedicassem um prêmio importante a si mesmos. O prêmio, nesse caso, seria o Príncipe das Astúrias de Literatura, um dos mais cobiçados do mundo, já conferido a escritores do porte de Günter Grass, Camilo José Cela, Juan Rulfo e Arthur Miller e que, até então, nunca havia premiado um latino-americano. Seria uma ótima oportunidade para homenagear os herdeiros do idioma de Castela, até para confirmar a sua vitalidade como língua de cultura universal. Mas não foi bem isso o que aconteceu. A comissão julgadora resolveu, sim, atravessar o Atlântico, e dar aos hermanos do lado de baixo do Equador a honra de figurar pela primeira vez no concorrido quadro de premiados. O problema é que, se o plano era esse, faltou uma breve consulta ao almanaque mais próximo para descobrirem que no Brasil não se fala espanhol e que, portanto, Nélida Piñon, a premiada deste ano, não serve como propagandista do idioma. O plano, se existia, fracassou por completo.

Será mesmo? É claro que os distintos senhores da comissão não ignoram detalhes culturais como o idioma de um país, que, se passam desapercebidos por presidentes e chefes de Estado, não escapam da atenção de senhores tão cultos e zelosos. Sabem muito bem eles que Nélida Pinon, como o seu nome já indica, é de origem espanhola, que fala um castelhano perfeito, que tem uma boa aceitação da crítica latino-americana, tendo inclusive vencido um Prêmio Juan Rulfo e um Menendez Pelayo e que, por fim, trata de temas ligados à presença hispânica no Brasil através dos imigrantes daquele país. Escolher uma escritora com esses predicados, num momento desses, parece melhor ainda. Afinal, o Brasil é, desde sempre, uma barreira para o avanço da cultura de língua espanhola, e a obra de Nélida Piñon seria a comprovação definitiva de que, mesmo num ambiente adverso, o ethos hispânico pode desenvolver-se plenamente e gerar uma obra original e de qualidade, suportando estoicamente as influências do meio. Atitude que convém, aliás, a um típico espanhol.

O problema é que nem assim o plano funciona. Primeiro, porque Nélida não é a melhor representante da cultura em língua espanhola no Brasil. O que chamamos de espanhol é, na verdade, o idioma de Castela, e os pais de Nélida são da Galícia, onde a língua é, naturalmente, o galego, língua mais parecida com o português do que com o castelhano. Os dois idiomas foram um só na Idade Média, o galego-português, língua em que foram escritos alguns dos mais belos poemas de amor cortês daquele período, assim como as melhores aventuras do Rei Arthur e seus cavaleiros. Conta-se, inclusive, que Camões teria origem galega, e quem escutar a música melancólica das gaitas galegas logo percebe a semelhança com os gaiteiros do Minho e de Trás-os-Montes, e, de modo mais tênue, com os sanfoneiros e rabequistas do nosso Nordeste. Os galegos ainda partilham com os seus vizinhos algumas características, como a conhecida saudade – resultado da origem celta, segundo alguns –, o gosto pelo mar, a tendência imigratória e uma certa mansidão que fez o basco Miguel de Unamuno observar que, ao contrário dos seus belicosos conterrâneos, os galegos eram um povo poco inumano, isto é, pouco animalizado. Não lhes atraem os exageros de comportamento, a voz alta, as afirmações categóricas e apressadamente construídas e revoluções que começam de manhã e acabam à noite. Quase poderíamos dizer que são a antítese do espanhol típico, logo ao lado, para que o contraste fique bem claro.

E esse é o povo que aparece na obra de Nélida Piñon. Mais precisamente, os imigrantes galegos que para cá vieram no decorrer do século XX e fixaram-se principalmente em São Paulo, Rio e Salvador. São o material para seu romance mais conhecido, A República dos Sonhos, publicado em 1984. O livro conta a história familiar de Madruga, o imigrante galego que deixa a terra natal ao lado do companheiro Venâncio e, depois de muitas dificuldades, acaba se estabelecendo com sucesso no novo país. Seus êxitos e fracassos nos mais variados campos – familiares, emocionais, financeiros, culturais – chocam-se com as suas antigas concepções de felicidade e sucesso e levam-no a reflexões um tanto amargas sobre si mesmo e aqueles que o rodeiam. A neta Breta, encarregada de cuidar das tradições da família, retoma a história dos antepassados num momento em que a esposa de Madruga, Eulália, agoniza na cama. No meio de tudo isso, a sensação de estranhamento e alheamento dos imigrantes em meio ao novo país, sensação que não se apaga facilmente mesmo com o passar das gerações. Perdidos numa nova terra, os imigrantes e seus filhos equilibram-se com dificuldade entre as antigas tradições deixadas para trás e o mundo novo que se lhes abre, numa tensão que acaba por transformá-los em estranhos para os dois lados e, por fim, estranhos para si mesmos, como bem ilustra Lavoura Arcaica, de Raudan Nassar, um representante ilustre – talvez o maior – desse tema na literatura brasileira. No caso da obra de Nélida, os galego-brasileiros refugiam-se na pátria sonhada, a Galícia mítica, o país do amor cortês e da simplicidade dos trovadores, a melancólica terra onde, como diz o poema medieval, o ceo é sempre gris – a República dos Sonhos que todo imigrante, e não só ele, procura habitar.

Nélida Piñon declarou certa vez que considera A República dos Sonhos sua Suma Teológica. A decisão é da autora. Não discordamos porque a comparação cabe: a obra de Tomás de Aquino não se esgota na Suma – que, para muitos, não passa de um grande resumo para estudantes –, assim como a de Nélida, autora de outros livros importantes como A Casa da Paixão, Sala de armas e Tebas do meu coração, que muito devem ter contribuído para sua premiação (descontada que está, a essa altura, a tese da escolha política). Para uma literatura como a nossa, que raramente consegue algum destaque no exterior – e que, quando consegue, o troféu sempre cheira a condescendência – um prêmio desse quilate, nessas condições acima citadas, traz a marca de um acontecimento verdadeiramente histórico que merece ser lembrado neste fim de ano.

Celso Augusto Uequed Pitol
Canoas, 4/1/2006

 
 
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