A memória da mulher encontra-se na Bíblia. Ainda que não tivesse sido ela interlocutora de Deus. Esta memória encontra-se igualmente nos livros que não escreveu. Uma memória que os narradores usurparam enquanto vedavam à mulher o registro poético de sua experiência.
Ao se fazerem eles, porém, desta memória intérpretes únicos, fatalmente nutriram-se da malha de intrigas, dos diálogos amorosos, das confissões feitas no leito de morte, da preciosa matéria enfim guardada no coração feminino. Em algum lugar desta mulher, e unicamente ali, alojaram-se para sempre os espinhos das intermináveis peregrinações humanas sobre a terra, sem os quais nenhuma obra de arte teria sido escrita. Portanto a mulher bem pode proclamar, em nome do legado que cedeu à humanidade, ser ela também a outra cara de Homero, de Shakespeare, de Cervantes.
Guardiã eterna dos sentimentos oriundos dos homens e dos deuses, a mulher conservou no aqueduto de sua singular memória a fulgurante e dramática história universal. Preservou os vestígios de uma memória ancestral que, somada ao seu próprio foco narrativo, a induziram a exercar , no passado , o seu ofício de olheira. A praticar, em meio a tantas afrontas, a rebelião que constituía tão somente em fazer aflorar a cada dia sua memória recalcitrante, preterida sempre pela memória eloqüente e arbitrária do homem.
E enquanto os séculos a envelheciam, a mulher zelava por reproduzir os ditames da sua visão particular da realidade. E , quando convocada a esquecer o que sabia, aleitava a memória com mel e pão ázimo. Fortalecia o peito com porções de suas íntimas revelações, para nada lhe faltar no futuro, quando começasse a narrar. Contudo, sem exercer o direito ainda de dar pauta escrita à sua arqueologia, à misericórdia do seu constrangimento social, adestrou-se ela no jogo do mistério e da dissimulação, para melhor enriquecer o arsenal das lembranças. Fazia brotar do plexus os frutos e as serpentes da memória. A cada manhã reproduzia, para si mesma, e com intensa volúpia, o que perdurava sob o abrigo de seu soterrado acervo. A história lacrada no interior do seu espírito.
Na aparência , ela atuava em obediência aos acordes dissonantes da memória do seu povo, aos substratos fomentados pela sua grei. Tímida, ia ao encalço das brechas da história. Sempre lhe restando o desconsolo de ironizar uma civilização que, ao longo dos séculos, interpretou a realidade prescindindo da memória e dos sonhos da mulher.
Sou uma mulher a quem meu avô galego emprestou sua memória. Portanto , meu avô é a minha narrativa. No meu ser sobejam as memórias que não vivi, não apalpei, mas que terei herdado. Minha memória aloja-se onde sempre estiveram o pensamento, a emoção, as paixões humanas. Sou diariamente perseguida pelo espírito da narrativa. Sei que o mundo é narrável e que a arte, em meio ao desespero e a esperança, alcança e interpreta as dimensões humanas.
Tenho gosto em servir à literatura com memória e corpo de mulher. Em mim residem os recursos sigilosos que a mulher engendrou ao longo da história, enquanto integrava o cerimonioso cortejo que a levaria a participar dos mistérios de Eleusis. Dependo, assim, do uso de múltiplas máscaras para iniciar a primeira frase de um romance. Para melhor perseguir as instâncias do meu século e dos séculos pretéritos. Sob a custódia do tempo, sofro cada palavra que fabrico.
Narro, porque sou mulher. Narro , porque desde os meus primórdios cumpro uma crença protéica. Sob o ardor da vida, sob a epifania das palavras, cabe-me assumir todas as formas humanas. A nenhuma delas dou as costas, cancelo suas vozes narrativas. Declaro-me filha do império humano. Ressoam em mim as derradeiras badaladas que o carrilhão humano faz repicar no destemido descampado.
É em nome destas memórias arcaica, moderna e americana, da memória de outros rincões da terra, na qualidade de brasileira, de herdeira da língua portuguesa, que recebo hoje o Prêmio Juan Rulfo, que tanto me distingue e enternece o meu coração.
Este galardão me é dado por um país, o México, a que devoto amor e admiração, sentimentos que inicialmente me inspiraram seus grandes escritores e artistas. Por um júri brilhante e honrado, cujos nomes, afinando-se às mais respeitáveis biografias intelectuais e morais, avalizam suas decisões. A eles agradeço, comovida, a indicação do meu nome. Este prêmio me é dado por instituições mexicanas que sonharam com uma América soberana, capaz de produzir e consagrar os escritores que dela falassem sob o crivo, e tão somente, da arte intransigente, solidária com o homem, interlocutora das estéticas que há milênios perpassam e torturam a consciência dos artistas.
Devo este Prêmio Juan Rulfo, notável escritor que tanto admirou o Brasil, a todos a ele associados. Aos amigos brasileiros e estrangeiros, e, entre eles destaco Carmen Balcells, aos que me ensinaram o valor da irmandade, acima das diferenças. Ao povo de meu país. À memória de meu pai, Lino. E, em especial, devo este Prêmio à minha mãe, Carmen Piñon, a mais nobre e generosa das amigas.
Sou-lhes profundamente grata. Comprometo-me a servir a este prêmio com dignidade e alegria. Prometo ainda jamais esquecer este momento que imprime em mim as marcas da honra e do respeito. Há anos venho dizendo, e com justificado motivo: a literatura nada me deve, eu, sim, devo tudo a ela.
Desde que os portugueses e os espanhóis desembarcaram na América, a palavra escrita, férrea, hesitante e contraditória, marcou sua presença neste continente. O espírito benfazejo e ambíguo que cerca a palavra de criação perseguiu o voluptuoso coração dos primeiros conquistadores e lhes impôs o inevitável recurso de fabular os secretos ditames de uma realidade inaugural, a pretexto sempre de documentá-la. A proclamação, pois, de que a América, envolta em denso mistério, afinal existia, realiza-se, então, por meio de sólidos enunciados escritos.
Essa escritura, sujeita a fantasias, equívocos, deslumbramentos, alardeia a visão de uma América que tem em mira uma Europa despojada de recursos, para aceitar, com irrestrita cumplicidade, as aparências ilusórias de um continente longínqüo, praticamente inexistente.
Sob o primado da palavra, no entanto, com seu cortejo de metáforas, verdadeiros tapumes da realidade, lentamente se estabelece a tradição de reforçar as excelências e as misérias do continente americano. Um legado que nasce inicialmente de oportunistas e sonhadores. Seres eleitos pela história como os primeiros a chegar àquela terra onde parecia imperar uma realidade que se desfazia em suas mãos inexperientes.
As palavras rolavam como seixos pelo leito do profundo rio americano. Tropeçavam todos ante a América que, em defesa da cartografia do imaginário, cancelava as linhas dos mapas elaborados com ingenuidade histórica. Um continente que resistia a ser descrita por meio de uma estética filtrada pela intransigência européia, por alguma caligrafia tímida, empunhada por sentimentos oscilantes.
Contudo, submissos todos a uma experiência pioneira, urgia narrá-la. Urgia traçar volutas no papel, ganhar habilidade, introduzir na narrativa o sentimento da quimera. Forçar , sobretudo , as portas dos caprichos da América. Um universo que cobrava uma linguagem revestida de véus, única capaz de poetizar o inapreensível. E de abraçar, com igual fervor, a mentira, a fantasia, as hipérboles, ingredientes que engrossam o caldo da invenção.
Por toda esta vasta terra colhem-se sinais da insistência narrativa. Auscultam-se os ruídos dissonantes e arcaicos de sua gente. De uma história que repudia visceralmente o vazio e o silêncio, materiais impenetráveis e desumanas. Há que preencher a casa da narrativa, e nela injetar versões incômodas, labirínticas, mas indispensáveis, que nascem do arbítrio do narrador. A paixão da escrita , em definitivo, inocula o imaginário latino-americano. Obriga esta América a admitir, do outro lado do arame farpado, a presença de um interlocutor estrangeiro, diante do qual o novo mundo, ao lhe falar, define seu papel na história, o que deve o mundo esperar da geologia de seu espírito e de sua poesia.
Neste nosso continente a sorte da escritura parece selada por força de desígnios emblemáticos, simbólicos, que vão acentuando, através dos séculos, os seus signos de identidade. Por todas as nossas terras emergem textos cuja soberania e poder narrativo consolidam, onde seja, o próprio conceito de América. O que é a América, no horizonte de nossas intrigas? O que é a América para nosso destino de mortais?
Do interior profundo destas terras nasce a literatura de Juan Rulfo, que dá nome a este galardão, e cuja voz narrativa é imprescindível para se adentrar na natureza secreta deste continente e identificar o eterno dilema que o anima, como fruto da sua condição múltipla, exuberante, questionadora.
Aqueles seres de Pedro Páramo que ganharam residência na alma americana, graças ao imperecível gênio de Juan Rulfo que toca essencialmente o coração sagrado do enigma do continente. Em Pedro Páramo, ele constrói um decálogo inovador que justifica, para seus desgarrados personagens, o significado de estar no mundo, de caber em seus trágicos limites.
Ao longo do romance palmilham-se as veredas das desmedida humana. Comala, como epicentro de profundas inquietações, é a cidade mítica povoada por heróis destituídos de façanhas. Juan Preciado, herói sem perspectiva, chega afinal à vila fantasmagórica. Dele se aguarda, desde o célebre intróito do romance, o relato de uma desventura pessoal, de um destino sem método. Desenrola-se a tragédia tendo como fim desmanchar os efeitos de qualquer utopia ou sonho.
O impulso poético de Rulfo elabora em Comala uma paisagem, uma língua, onde a morte, de configuração ambivalente, e sempre presente, enlaça-se com a vida pulsante, sem nítida distinção entre elas. Uma morte que ganha expressão através de uma dicção feminina que, com familiaridade, emerge das sombras.
Aqui é o feminino que define a cartografia da morte. Uma geografia que há de acolher indistintamente os vivos e os mortos. Nesta antecâmara infernal, constituída de vielas e corredores, a perturbadora presença da mulher estremece os alicerces das casas. Sinaliza os indícios da morte, desenha uma genealogia de que Juan faz parte, e que se estende além da vida. Em Comala, os laços humanos não se desfazem nem depois da morte.
A estranha lógica do livro, construída em meio à sucessão dos que desertaram da vida, ou nela ainda permanecem, sustenta uma ilusão que elabora caprichos, que a tudo prevê. Para tanto encaixa, à perfeição, cada detalhe na ordem do conjunto. Nenhum fio narrativo se esgarça neste surto estético de magnífica provisão, de inspiração virgiliana.
Enéias, acompanhado pela Sibila, desce do outro lado da montanha para encontrar o pai, Anchises, mestre da memória. Para ele o Hades era o recinto propício às lembranças, pois não bebera das águas do rio Lethe, que as todos punia com o esquecimento.
Seu análogo, Pedro Páramo, ao expurgar os demais da sua memória, convertera-se em uma imagem, simulacrum, projetada nas evocações alheias. Unicamente o ocupava Suzana San Juan, a licenciar-lhe a paixão, oferecendo-lhe a turbulência dos sentidos, o seu inferno. Graças a quem, porém, Pedro qualifica-se a arranques líricos:
“Pensaba em ti, Suzana. En los lomos verdes.”
Venho de um país ensolarado, de terrae incognitae, a que se atribuía, por imposição lendária, a realidade física do Éden, do paraíso terreal.
O Brasil é a minha morada. Uma geografia real e mítica, que favorece o gosto da aventura narrativa, o exercício do imaginário. Ali habita um povo de etnia caprichosa, de alma resguardada nos grotões. E escritores que, ao abrigo e desamparo dos próprios sonhos, surpreendem em cada esquina o desgovernado traço da paixão humana.
Há cinco séculos vivemos perturbadora experiência civilizatória. Nascidos historicamente de uma utopia expansionista, em plena vigência renascentista, o país marcou, desde o início, viva oposição temporal à história ao absorver uma prática ora oriunda da Alta Idade Média, ora da contra-reforma. Uma e outra promovendo uma ruptura com os ideais da renascença.
Neste advento, surge a figura inaugural de um jesuíta espanhol, José de Anchieta, o primeiro escritor do Brasil. Escrevia como se existissem brasileiros que lessem, para um Brasil que escassamente existia.
Tentava , com seu texto , enternecer e evangelizar velhos antropófagos que ainda guardavam nas cavidades dentárias restos de carne humana. Recolhia , em suas mãos , um mundo recentemente concebido por Deus. Mas , enquanto escrevia , na areia, poemas que as ondas logo apagavam, convertia os gentios ao cristianismo, instaurando sua liturgia no picadeiro da terra recém-descoberta. Em torno, a atração dos portugueses e índios pelo novo aliciava a luxúria e a ganância.
A José de Anchieta exaltava-o, sobremaneira, o território das fundações míticas, regiões providas em si mesmo de recursos capazes de alcançar a aparência do real. Portanto havia que representar os frutos da terra, a geografia exuberante, a presença de Deus com natural sacralidade. Tudo no Brasil denunciava um vazio que a invenção humana e o espírito deveriam preencher. Por onde este homem andava, a realidade cobrava habilidade descritiva, imediata ocupação novelesca. Os episódios narrativos, como que encadeados, precisavam ganhar expressão teatral. O cotidiano arfava na esfera do enigma. Ali, na América, enlaçavam-se estupor e naturalidade. Era mister, pois, dar função teatral àquela fascinante experiência histórica.
Aquele país, a despeito das florestas espessas, dos rios oceânicos, de um sem-número de tribos, destinava-se a ter sua iniciação estética sob as regras da encenação teatral. Havia que criar um mundo o qual, aplaudido por Deus, se apropriasse ao mesmo tempo da ilusão como tema de sustentação.
Assim, por meio da representação e do uso da língua tupi - língua geral, Anchieta impõe ao Brasil a poética do simulacro. Nada existia na vida terrestre e espiritual que o palco, a céu aberto, não pudesse desenhar e reproduzir com igual perfeição. Sob a égide da ilusão, que é a capacidade de aceitar os sentimentos que nos habitam como premissa para a existência da própria obra de arte, Anchieta contava com a imaginação para confirmar este sentimento original.
Semeia , por onde passa , tablados modestos e , com panos soltos ao vento , cria elementos de simulação do universo. Um teatro que , tendo os índios como atores , aplica nos espetáculos artifícios de precária imitação. Ao recorrer à ilusão, quase de caráter teológico, usa o trovão para emoldurar suas evocações bíblicas. Na crença de existir na ilusão da arte o implícito propósito de criar um mundo que se deve aceitar como possível.
Neste palco brasileiro exposto às intempéries, ao abrigo das árvores e da esperança, seu teatro ambiciona decifrar a arqueologia humana e formar parte da aspiração coletiva. Alimenta, no arfar do coração do Brasil, o delicado equilíbrio que perdura entre realidade e invenção. Oferece-lhes o desafio de adotarem, em reduzido período de tempo, convenções estéticas e culturais que a civilização cristã engendrou ao largo de sua formação. Deveriam todos absorver, em um átimo, um prodigioso arco cultural que implantasse entre eles um espetáculo contínuo em sua singularidade.
Instaura-se na psiquê coletiva, ao longo de séculos, o sentimento do milagre, o modelo de uma realidade que pode atuar e expressar-se sob o impulso do acaso. Alastra-se pelo cotidiano desvalido um permanente sentido de representação, que impulsiona a vigência de uma estética capaz de suprir o cotidiano da arte com a fartura do improviso e da imitação.
Desta forma, desde os primórdios da sensibilidade brasileira, implanta-se na arte a estética da carência e da magia. Uma perturbadora aliança que converte o milagre, ou a sua esperança, em uma variante estética. E que indica os prodígios como facetas restauradoras do imaginário americano.
Mais tarde, o Brasil, desembocando no barroco, faculta a criação de maiores fantasias e devaneios verbais. Alarga a percepção do escritor para aboná-lo com a vizinhança de um Simbad, o marinheiro volátil, o mito da mentira e da abundância. Desta forma, viajam todos pelos arquipélagos da língua, à escuta do vento que propaga controvérsias, sentimentos inflamados, enredos que entrelaçam o ambíguo e o rarefeito. Aderem aos feitos e às recônditas evasões do homem, para conceder à história rumo inesperado e sagaz.
Da cosmogonia do europeu, do índio, do negro, aflora denso universo de mitos, lendas, e narrativas. Um fabulário que se incorpora à paisagem psíquica do escritor, às emoções da língua, a apaixonante aspereza do texto. Deste mar de incertezas e de assombros, dos conflitos do superlativo e do desperdício, afina-se o escritor com as pautas do imaginário. Em especial com a narrativa que se consubstancia em mil histórias, cada qual com mil versões singulares.
É deste país que emerge o gênio de Machado de Assis. Saído da América, ao desamparo das discretas glórias do ofício, elabora sua obra sem jamais haver deixado o brasil. Tinha o mar, a cidade do Rio de Janeiro e o pessimismo com suas únicas esperanças.
Seus sucessores igualmente recusaram o exílio voluntário para dar forma ao sonho da arte. Atados ao Brasil, ali exerceram o intrincado papel de escritor. Limavam a realidade, engendravam personagens dramaticamente irreconciliáveis entre si, poliam a prata das palavras. O texto , registro dos escombros humanos e da memória esfacelada , realçava vivos e mortos, desvendava o arcabouço de qualquer segredo. Para tratar da sociedade, dar luz a um país que excedia às molduras sociológicas, havia que buscar a salvaguarda da arte, seu círculo de fogo.
Magníficos escritores que se opuseram sempre ao silêncio, às adversidades. Desde os períodos ditatoriais aos escassos instantes de fulgor democrático. Na América, é mister do escritor combinar a arte literária com a apologia da consciência e dos direitos individuais e coletivos. Não se espera do escritor apenas a rubrica fundamental do estético. Dele se requer a contundência da palavra, um feito em si gerador de uma política de resistência, de combate ao mundo das trevas, do obscurantismo, das injustiças do nosso tempo.
Sua palavra ígnea, escrita ou falada, alia-se aos atos humanos, proclama o aviso das urgências coletivas. Enquanto enfrenta, em meio a escassez, a dificuldade de concretizar a matéria ficcional que o talento lhe cobra, por sinal sua mais profunda razão de ser.
Por isso empenha-se em jamais guardar para si a história humana. Quer, como um Homero esgotado de tanto sangue derramado, criar mitos que abasteçam a imaginação humana. Anseia por condenar Ulisses, após o cerco de Tróia, a retornar a Ítaca. Inveja-lhe a interminável viagem de volta a casa. Uma sucessão de peripécias que o instala, afinal, junto a Penélope, como se dali não havendo saído, tivesse ele mesmo escrito a história que terminou de viver, com o único propósito de consolidar o império da ilusão e causar-nos prazer enquanto o estivéssemos lendo.
Mas , para tal exercício de sedução, o escritor conta apenas com a palavra que fere e decepciona. Graças a qual, contudo, amplia a fronteira do real, realça os cenários outrora esquecidos. Com a palavra apenas ilumina os desvãos daqueles atos que asseguram o mistério da arte e a perenidade do papel de escritor em meio aos homens.
A legião dos homens, porém, é assimétrica e voluntariosa. Cede porções de sua rebeldia unicamente diante da revelação da arte. Vale, pois, confessar que nós, escritores, pertencemos a falange dos anjos caídos que se esforçam a cada hora por voar. Há séculos, a realidade apara as nossas asas para não sucumbirmos ao apaixonante vórtice da imaginação. Contudo, a insurreição humana só pode ter a arte como destino. O desatino do homem expressa-se e se aloja na criação. Nada deve esvair-se sem o registro literário. Abaixo, pois, as sociedades que se esquecem de classificar a impiedade dos homens. É indispensável que o retrato humano subsista ante o universo de suas incertezas. Fora da utopia da arte não saberia o homem sequer falar da fragilidade dos seus tendões, ou da controvertida modernidade dos seus sonhos.
É da tradição literária aliar-se às produções humanas, avizinhar-se das casas, pôr-se à espreita atrás das portas, auscultar o coração alheio. Neste ancoradouro, que é o coração, amontoam-se confidências, desabafos, palavras enfim que carecem da escrita apurada.
A arte das palavras suplica-nos que nos desfaçamos dos recatados sentimentos. Insta-nos, com urgência, a dispô-los sobre a mesa e a cama, à vista de todos. Para que o mistério humano, abstraído da vergonha original, abra-se como flor matinal.
É seguindo, porém, a esteira dos grandes criadores, inveterados cúmplices das lendas universais, que o escritor apura o olfato do seu ofício, tece e recolhe as intrigas. Usa dos ingredientes de comprovação duvidosa, de aparência imperceptível, para com eles apenas, rarefeitos e fugidios, passar a inventar, a criar por força de sua audácia que nasce do ato mesmo de escrever. Oriundo talvez da certeza de estar invadindo o território mítico da própria criação. Não há punição para os que se excedem no campo da arte.
A vida, pois, para o escritor, reproduz-se naturalmente em mil outras. Pródigo exercício de versões incompletas, inválidas, mas sempre apaixonantes. Para tanto pede ele à língua, ao povo desta língua, à paixão deste povo, licença para recomeçar a criar. A esperança é também uma técnica narrativa, ela, sozinha, ata os nós soltos das questões humanas.
Cada manhã é o começo da ingente tarefa de reproduzir a galeria de rostos que se dissolvem no crepúsculo sem deixar lastros. Imerso, no entanto, no pântano das hipóteses sociais, o escritor reforça-se como intérprete dos regimes povoados de carências. Torna-se um historiador que narra a história do impossível. Alguém que enlaça inicialmente os laços invisíveis e esboçados com tinta solvente. E para compensar a fragilidade da matéria com que lida - homem, aventura, tempo - ergue uma narrativa capaz de aglutinar em suas páginas extensa genealogia, ora arcaica, ora moderna.
Sob o desconforto da paixão de inventar, o escritor, transido de frio e de medo, traslada tempos, espaços, tribos inteiras para a pátria de sua imaginação. Senhor de um arbítrio imposto pela sua encorpada dicção poética, que se mesclou sempre às imortais lamúrias de um coro grego.
Tangido pela tragédia, ele documenta a farsa e o drama com seu sopro restaurador. Salpica a vida com indícios contundentes e submete a palavra aos feitos humanos. A moral histórica, para o escritor, com sua escala móvel, com sua rígida hierarquia, serve como falsa moldura. Uma moldura que o ficcionista alarga para comprovar que cada personagem é rei em sua história. Rei e vilão, com andrajos e coroa, em uma única pessoa. Acomodados todos à paisagem que tonifica sua narrativa, ao esforço artístico que lhe ensina a paciência.
É sua consciência de narrador a conclamar que o enredo lhe pertence, enquanto o enigma da criação, e seu funesto hino, devoram-lhe o sono, as juntas ,o fustigam com envelhecimento precoce.
Este é o preço a pagar pela inexcedível liberdade de criar. Afinal, o homem, seu imutável personagem, chega-lhe às tripas com sangrenta e ruidosa paixão, e há que servi-lo para sempre.
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